Colaboração: Apase Rio Grande

DIA DOS PAIS

Paulo F. M. Pacheco
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Procura-se um poema, nesta data consagrada aos pais. Pressinto inadiável um canto de amor filial, àquele que faz 93 anos, enquanto cresce-me a impressão de que resta cada vez menos tempo para entoá-lo.
         É prudente surpreendê-lo num momento de aguda lucidez, para que a resposta não se restrinja a um gemido – ainda que secular – de árvore secularmente vergada pelo furor dos vendavais.
         Mas como não há poema, nem canto, nem oração capazes de sumariar dezenove lustros de perseverante bem-querer; como temo resvalar pela pieguice, ainda, pela minha falta de originalidade, é que escolhi revisitar autores que tanto me sensibilizaram no passado:

Augusto Frederico Schmidt – Nada é tão triste como o olhar do Pai que se despede do filho. Nada é tão triste como o olhar do Pai, que sente e compreende, enfim, que o filho é alguma coisa diferente dele próprio, e que tem um caminho diverso do seu caminho. Nada é tão triste como o olhar de um homem, que fundou no efêmero a eternidade de um sentimento, e reconhece, enfim, que o destino sorri do seu dilaceramento. Nada é tão triste como as mãos que se levantam para a última benção sobre a inquieta cabeça de um filho, que parte para as núpcias com o mundo.

Carlos Lacerda – Filho que meu pai procurava chamar a si, cada qual mais carente um do outro, ele sempre a chamar pelos filhos, os filhos sempre precisando dele – amor paterno, amor filial – como deixaria de ser assim, se é um amor a dois em que um deve ao outro a vida, enquanto este é sinal e testemunha do envelhecimento, decadência, e morte do outro? Um amor de opostos, um que cresce, outro que diminui, um que se acende na luz do outro que se apaga.

Rubem Braga – No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos. Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de águia, o riso fino, engraçado, brusco. Eu lhe daria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes: a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração. Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

 

Ildefonso Simões Lopes Filho – Meu Pai! Em face dos homens mantenho a posição ereta, a linha da dignidade que tu conservas e que me ensinaste a mostrar. Mas diante de ti, posto que em pé, fitando o teu vulto que é dos que descem subindo, em contraste com muitos que sobem descendo, diante de ti, pai, mal não é que eu ajoelhe para oscular-te a mão benfazeja, até porque, consoante a parêmia de Victor Hugo, “há momentos em que a alma, qualquer que seja a atitude do corpo, está de joelhos”.

Da mesma forma, autores outros, de todos os tempos, fizeram ecoar a “voz do sangue” enaltecedora do amor entre pais e filhos. Relataram, em prosa ou verso, situações substancialmente idênticas: o brincar de esconde-esconde; a felicidade dos pais (sempre repousando na felicidade dos filhos); o embalo dos berços, onde os filhos “adormecem sob os cuidados dos pais, e estes acordam entre as alegrias dos filhos”.
         Mesmo Luís Garcia, sisudo personagem de Machado de Assis, no livro Iaiá Garcia, desmancha-se em bobices, só para fazer rir sua filha Lina. Porém, nada mais comovente li do que a descrição da despedida de Érico Veríssimo do pai, Sebastião Veríssimo, na gare da viação-férrea de Cruz Alta, narrada no livro “Solo de Clarineta” – capaz de abrir “talhos incicatrizáveis na alma da gente”.
         É nas horas em que os autores padecem das fortes contrações do sentimento, que lhes surgem as mais sublimes inspirações.

Isto quer dizer que o homem sofre mais do que a mulher, quando da perda de um filho? De maneira nenhuma. Não ama somente o pai, ou somente a mãe; amam os dois, constituindo uma paridade benéfica e necessária, absolutamente necessária à plena formação física e mental da criança.

Recentemente, nossa estimada escritora Hilda Simões Lopes, em “Um Silêncio Azul”, imortalizou-se com o filho Rodrigo, elevando-se à universalidade do espírito.

O psicanalista Luigi Zoja, no livro “O Desaparecimento do Pai”, é contundente. Eis alguns excertos:  “Em uma ou duas gerações as pessoas poderão sair da pobreza, mas da catástrofe psicológica da ausência do Pai não há saída. No Blooklyn, pais e mães estavam presentes, mas era sempre o pai que se dirigia às crianças, dando explicações sobre o que estava exposto, acompanhando-as em cada passo. Vejo muitas mulheres heróicas, que são suficientemente fortes para substituir a ausência do pai mas, tipicamente, a atitude de força é esperada do pai e não de uma mãe que cria os filhos sozinha. A perda de pais autoritários também implica na perda da autoridade em seu aspecto positivo. Esta, se não exercida, enseja que os filhos venham a reclamar: “As coisas não deram certo. Por que não me preveniram, ou não me proibiram?”

O eminente magistrado, Dr. José Antônio Daltoé Cézar, prolatou memorável sentença na qual questiona: “A quem primeiro a mãe apresenta seu bebê? Ao pai. Desta maneira, a mãe não se mantém em uma dualidade unificadora bebê e mãe, mas reconhece um outro a ver com esse bebê. Esse ato, de a mãe pôr em operação a função paterna, é decisivo na estruturação desse sujeito humano”...

Todavia, o que fazer, quando a mãe, no cumprimento de egoística e abominável “tradição” familiar, apresenta o filho, não ao Pai, mas à própria mãe e demais parentes do lado materno, os “cognatos”, os quais passam a gozar de uma consideração e carinho recusados ao esposo, que procuram transformar num estranho?

Bem, aqui torna-se imperioso recurso ao Judiciário em busca de porto e salvamento. Contudo, há casos em que o pai, por excesso de pudor, espírito de renúncia, magnanimidade extrema e até por vergonha de não ter percebido que fora eleito apenas para reprodutor, não recorre ao Judiciário. Presenciei um caso desses em que a mãe e a família desta monopolizaram um menino, sendo as visitas do pai condicionadas ao pagamento de pensão extorsiva, excedente à que poderia ser arbitrada em juízo. Durante dezoito anos o menino foi neto de apenas dois avós.

E o que fizeram os avós paternos? Sobreviveram. Sobreviveram e, durante todo esse tempo, mantiveram intacto, intocado, o quartinho que haviam montado – carinhosamente, amorosamente – para o neto. Um dia, este já emancipado, ali adentrou e veio a saber a quem se destinava o berço... Herdeiro do coração e da inteligência do pai, percebeu de plano a injustiça gritante.

Continuou a ser neto de apenas dois avós mas, desta vez, do lado paterno, pois sua revolta foi de arrepiar até a superfície tensa dos lagos.

Procura-se um poema para esta data consagrada a esse extraordinário pai, assim como se deverá procurar, no Dia das Mães, um poema àquelas que também foram injustiçadas, pois a estupidez humana não é imanente ao homem ou à mulher, mas ao ser “racional”.

 

Sobre o Autor.

Paulo F. M. Pacheco é oficial da reserva da Brigada Militar, cirurgião dentista, professor universitário, poeta e ensaísta. Pai e marido dedicado, amigo fervoroso,  Pacheco nos traz uma reflexão sobre o Pai. Pacheco é colaborador da Associação de Pais e Mães Separados. www.apase.org.br

Rio Grande, agosto de 2001

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