METÁFORAS INFANTIS  

Paulo F. M. Pacheco
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Cedo aprendemos, nesta pertinaz luta do homem pela expressão, que atentos devemos estar às qualidades do estilo: clareza, concisão, correção, harmonia, originalidade e vigor.

De tais cuidados, a originalidade e a espontaneidade, quedam-se freqüentemente prejudicadas. Sucede que utilizamos construções frasais preexistentes, sedimentadas ao longo do tempo ou locuções que, dada a repetição excessiva, tornaram-se lugares-comuns.

Abandonei a leitura do livro "Nas margens do rio Piedra sentei e chorei", única obra do autor Paulo Coelho que me propusera a ler, quando nas páginas iniciais deparei, pela sexta vez, com o clichê "instante mágico".

Adicione-se a essas expressões vazias e cômodas, porque de aplicação polimórfica, orações tão ao gosto de tecnoburocratas pedantes, tais como: "Flexibilidade logística compatível" e "Contingência diretivo funcional", que servem apenas para encompridar relatórios.

Deveríamos ouvir mais as crianças, atentarmos para a criatividade ou a cadência poética contidas nas manifestações orais de nossos filhos. Eis alguns juízos elaborados por crianças na faixa dos quatro anos de idade: "O cor-de-rosa, mamãe, é o vermelho devagar" (Suely); "A lua é feita de pedacinhos de estrelas?" (Elizabete); "O céu é uma fábrica de nuvens" (Guilherme); "Mas nossa casa interrompe a beleza das flores", "Durante toda a minha vida nunca vi isso" (Larissa): "Achava que bomba é só aquilo que sobe e estoura lá no Deus" (Emmanuelle); "Que tomates musculosos!" (Amanda); "Que tumulto d'água!" (Lucas); "Visitar meu pai de novo? Essa juíza me deixa confuso!" (Pedro); "Vocês não podiam ter filhos, porque não sabem tratar as crianças" (Natália).

Comovente a crença de um filho de dois anos nos poderes ilimitados da mãe: "O mar tá frio, aquece, mãe!" (Eron); "Achei uma lagarta-quente" (Leonardo, ao tocar num marandová). "Pai, me compra um Bob-quente" (Jônatas, socorrendo-se do nome do cachorro da família).

Boa ou má, inafastável a influência da tevê na formação da criança. Uma menina, entregue a uma audiência excessiva, quando batiam à porta de sua casa teatralmente exclamava: "Oh!... Entrem!... Por favor!"

Acreditávamos que Larissa, aos três anos de idade, fosse alheia ao enredo das novelas, até o dia em que largou a boneca e correu para a cozinha, a fim de contar a grande novidade: "Mãe, sabe que a Tela (Estela era o nome da personagem) voltou pro malido?"

Há poucos dias, uma bancária que costuma vestir-se com a sobriedade exigida pela função, comprou uma blusa cuja única extravagância estava nas mangas: os punhos se abriam em boca-de-sino. Consultada, sua filhinha Vitória emitiu o seguinte parecer: "Legal, mãe, também quero uma para o carnaval." Um juiz amigo, proibia a filha de assistir a novelas, mas sempre que a avó os visitava a interdição era suspensa. Bastou uma semana para que a incipiente telespectadora demonstrasse, na hora do jantar, o que mais assimilara: "Mãe, o pai foi o primeiro homem da tua vida?"

Ainda Jônatas, desta vez horrorizado com os gemidos do pai, enquanto a mãe lhe espremia as erupções na face: "Não deixa mais a mãe te judiar, compra Acnase."

Jorge Guillermo Borges, pai do escritor Jorge Luis Borges, tinha a convicção invencível de que as crianças educam seus pais e não ao contrário. É uma incoerência querermos educar nossos filhos com argumentos flagrantemente antieducativos, eis que, o principal problema da educação reside no educador, não no educando.

Por tudo isso, parece-nos pouco cristão, espanca nossa consciência, o procedimento de alguns pais separados, quando procuram sonegar totalmente, um ao outro, a mais encantadora fase da vida de seus filhos; a fruição plena de seus inefáveis pensamentozinhos.

O próprio título deste artigo, penitencio-me, está a pecar pela dubiedade de sentido. Melhor ficaria: "Metáforas das crianças", porquanto infantis, não raro, são as analogias elaboradas por nós adultos.

O autor também escreveu a crônica “Dia dos Pais”, ambas integram o livro “Amados fantasmas” a ser lançado em julho 2004.

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