Integra da matéria publicada na revista Veja, edição de 05 de setembro de 2001

 

UM NOVO ARRANJO FAMILIAR

Crescem os casos de homens que ganham a guarda dos filhos, mas isso ainda causa estranhamento.
Flávia Varella

 Na época de sua separação, há seis anos, Jany Maria dos Santos entrava no trabalho às 8 e meia da manhã, saía no fim do dia e ia direto para a faculdade. Seu marido era quem administrava o dia-a-dia dos filhos, Bruno, então com 9 anos, Mariana, com 7, e Matheus, de 1 ano e meio. “Os papéis lá em casa estavam invertidos”, conta ela. A inversão oficializou-se. A guarda legal dos filhos maiores ficou com o pai após a separação do casal. Dois anos depois, o pequeno Matheus também foi entregue ao ex-marido de Jany. Essa solução retrata uma mudança social ainda incipiente, mas cada vez mais comum. O porcentual de brasileiros que vivem em casas onde moram um homem sem a mulher, mas com os filhos, praticamente triplicou nas duas últimas décadas, de acordo com o IBGE. O novo Código civil, aprovado no início de agosto, agora define que fica com a guarda dos filhos quem tiver melhor condição, sem prioridade para as mães. Essa nova estrutura familiar, porém, ainda causa estranhamento. “Eu sabia que estava fazendo o melhor, mas não tive nenhum apoio. Até minha mãe e minhas irmãs condenaram”, diz a bancária Jany.

A situação doméstica “invertida” criada na casa de Jany é reflexo de uma sociedade diferente que se foi formando com o esmorecimento do antigo padrão familiar de homem responsável por prover os recursos materiais e mulher encarregada dos cuidados da casa e dos filhos. “O conceito de família mudou num crescendo desde 1950, até que começou a aparecer, muito mais recentemente, no mundo do direito”, afirma a advogada paulista Maria das Graças Pereira Mello. Há poucos anos, um juiz só tirava a guarda dos filhos de uma mãe se ela cometesse falta muito grave. Mães que abriam mão desse direito, então, praticamente inexistiam. Prova da naturalidade da questão é que hoje, seis anos após a separação, Jany está com os três filhos de volta a sua casa e com a guarda deles. “Agora a situação é outra. O pai casou-se com uma mulher que já tinha três filhos, eu tenho mais tempo livre e mais dinheiro para oferecer o que eles querem”, resume a mãe.

Uma estatística feita pelo juiz Guilherme Gonçalves Strenger dos processos litigiosos da cidade de São Paulo revelou que neste ano, pela primeira vez, os pedidos de guarda de filhos feitos por homens superaram os de mulheres. “É um bom retrato da mudança de comportamento da sociedade”, diz. Nos Estados Unidos, onde houve um aumento de 62% no número de pais que cuidam dos filhos sozinhos nos últimos dez anos, a maioria dos casos ocorre porque as mães entendem que os filhos ficarão melhor com os pais e cedem a guarda. “No Brasil ainda é raro a mãe concordar pacificamente com a cessão. Mas acredito que vamos evoluir para o reconhecimento das mulheres de que isso é normal”, afirma o juiz.

A disputa pela guarda de filhos na Justiça é sempre uma situação dolorosa. Os atores Felipe Camargo e Vera Fischer brigam há quatro anos para ter o poder sobre o menino Gabriel e já participaram de sete audiências. No início do ano o jornalista Pedro Bial conseguiu a guarda do filho Theo, de 3 anos. A mãe, a atriz Giulia Gam, ficou desalentada e agora, enquanto o processo corre na Justiça, tenta chegar a um acordo com o ex-marido. “A disputa é muito desgastante, até para o filho. Pois é difícil mantê-lo alheio a todo o sofrimento de tantas audiências, sempre com o risco de a situação mudar”, afirma Felipe Camargo. “Ter a responsabilidade de cuidar de um filho, por outro lado, é muito enriquecedor.” Sua opinião é confirmada pela psicóloga Rosane Mantilla de Souza, que fez sua tese de doutorado sobre homens que ficam com os filhos. Segundo ela, todos eles relatam uma transformação pessoal agradável, na qual parecem mais sensíveis a nuances de comportamento. “Conviver com o Gabriel é um constante aprendizado do exercício de amar”, diz o músico Renato Garcia, que tem a guarda do filho desde que o menino tinha 2 anos e meio. “É emocionante vê-lo aprender a ler, observar seu primeiro dente cair. Com seu jeito calmo e doce, ele me ensinou muito sobre a tranqüilidade para resolver as questões da vida”.

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