Jornal O GLOBO - “Jornal da Família”

03/10/1999


O novo pai descasado

 

Repórter Antônio Marinho

Homens separados se dedicam mais aos filhos e assumem as tarefas domésticas

O oftalmologista André Cechinel, de 43 anos, ficou casado quatro anos. Quando se separou, programou sua vida para passar o maior tempo possível com a filha Fernanda, de 3 anos. E até abriu mão de um emprego para ter mais horas livres. O novo pai descasado é assim. Deixou de se preocupar apenas em depositar a pensão na conta da ex-mulher e encontrar os filhos a cada 15 dias. Hoje, participa tanto quanto a mãe do dia-a-dia e da educação das crianças. Tanto assim que, para os filhos, já não há mais diferença entre a casa do pai e a casa da mãe. As duas têm a mesma infra-estrutura, com direito a quarto, brinquedos e empregada.

- Minha filha tem duas casas e somos mais felizes do que antes. Fernanda tem dois quartos na minha casa e montei outro para seu irmão Arthur, de 8 anos, filho da minha ex-mulher - diz o médico.

Essa nova infra-estrutura doméstica do homem descasado está permitindo acordos na hora de partilhar a convivência com os filhos. A legislação prevê que o pai visite o filho um fim de semana a cada 15 dias. Mas Cechinel encontra a filha diariamente e não é exceção.


A figura do pai na educação dos filhos

 

O advogado de família Paulo Lins e Silva lembra que a lei não acompanhou a mudança na estrutura familiar:

- Alguns juizes reconhecem a nova realidade e já estão flexíveis. Além do fim de semana quinzenal, autorizam que o pai encontre as crianças mais dois dias durante a semana e que, aos 13 anos, o jovem escolha com quem quer morar.

Mesmo pais com agenda cheia de compromissos, como o jogador de vôlei de praia Giovane, fazem acordos informais com a ex-mulher. Separado à dez meses, ele tem lugar em casa para os filhos Giulia, de 3 anos, e Gianmarco, de 1 ano e meio.

- Quando não estou competindo, vejo meus filhos todos os dias. Na minha casa tem um quarto para os dois, mas quando estamos juntos dormimos agarrados e fazemos a maior bagunça - diz o jogador.

O novo modelo de pai descasado já se disseminou a ponto de conquistar várias gerações. O cirurgião plástico Edmar da Fontoura, de 48 anos, garante que sabe se virar com o filho Edmar, de 3 anos:

- Fui pai aos 45 anos, quando já não tinha preocupação com o sucesso. Curto meu filho porque me programei para ser pai. E não tenho dificuldade para lidar sozinho com ele, porque antes do casamento com a Myrian Rios fiquei 12 anos solteiro. Sei administrar uma casa.

Segundo a psicanalista Marguerite Labrunie, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, o novo descasado é um pai mais emotivo:

- É sinal dos tempos. E o envolvimento emocional desses pais com as crianças é muito maior.

 

O NOVO PAI DESCASADO

Um perfil que influencia diferentes gerações

Psicanalista diz que homens com maturidade emocional têm mais prazer em acompanhar a educação dos filhos

 

Nem sempre a história do homem separado com filhos é um mar de rosas. O comerciário Marcelo Pereira, de 30 anos, foi casado durante três anos e está divorciado à dois. No início da separação não conseguia se entender com o filho Henrique, de 6 anos.

- Minha separação foi litigiosa e as discussões com minha ex-mulher eram freqüentes. Para piorar, arrumei uma namorada poucos meses depois do fim do casamento. Ela foi morar comigo e meu filho não aceitou. Ele não queria ficar o fim de semana comigo. Às vezes tinha que levá-lo para a mãe de madrugada. Com o tempo, meu relacionamento com minha ex-mulher melhorou e hoje Henrique passa mais tempo comigo - conta.


A preocupação dos pais diante de novas relações

Namoradas nunca foram problema para Cechinel.

- Nunca apresentei namoradas para Fernanda. Não vale a pena criar essa expectativa numa criança de 3 anos. Minha filha está sempre em primeiro lugar - afirma.

Já Edmar diz que o filho se dá bem com sua namorada:

- Ele é muito simpático e fez amizade em pouco tempo com minha namorada, que tem um filho de 7 anos. Nunca atrapalhou meus programas.

O jogador de vôlei Giovane acha que é cedo para apresentar uma namorada aos filhos:

- Eles ainda são muito pequenos para entender.

Segundo a psicóloga Marion Perpignan, o pai descasado deve conversar com os filhos sobre um novo relacionamento com naturalidade:

- O pai não deve mentir. Caso contrário, a criança se sente traída. Não há idade ideal para falar do assunto.

Separado da fotógrafa Márcia Ramalho à mais de dez anos, o também fotógrafo Milton Montenegro mora com o filho, Rodrigo, de 17 anos, à apenas cinco.

- Minha relação com meu filho mudou. A Márcia é que virou mãe de fim de semana. Sou mais pai do que antes. Tenho que dar uma de fiscal e ver se ele escovou os dentes, se marcou o médico, se está atrasado para a aula. É engraçado, pois o Rodrigo é adulto suficiente para viajar nos fins de semana, mas ainda precisa de babá. E desempenho essa função.

Montenegro, autor do livro "Câmera obscura", lembra que, nesta convivência, surgiram áreas de atrito que não existiam. Mas que a experiência está sendo boa para pai e filho:

Minha casa tem toda a estrutura necessária para abrigar um filho, como cozinheira e faxineira. Tirando os conflitos por causa dos limites de liberalidade e da dificuldade de administrar essa passagem de adolescente para adulto, nos damos muito bem.

O psicanalista Paulo Humberto Bianchini, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, diz que nem todos se adaptam a este novo modelo do pai descasado:

- Muitos enfrentam dificuldades financeiras, que aumentam com a separação. Do ponto de vista emocional, alguns estão envolvidos com a crise que levou ao fim do casamento. Vivem com sentimentos de fracasso, culpa e impotência.

 

Viver a separação leva á maturidade emocional

 

Ele acrescenta que entre os casos bem sucedidos estão os descasados que enfrentaram a dor da separação:

- Esses homens saem do casamento com personalidades maduras e, por isso, assumem a responsabilidade de cuidar dos filhos. São pais que têm satisfação de acompanhar o crescimento das crianças.

A maturidade destes homens, segundo Bianchini, inclui o reconhecimento da ex-mulher como uma presença necessária para seus filhos e não como rival.

- Em geral, a ex-mulher é tratada como inimiga. Considero como aspecto importante desta maturidade a idéia de que os dois formam um casal de pais, mesmo que não sejam mais marido e mulher - diz. (Colaborou Luciana Werner)

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