Matéria publicada no “Jornal Agora” de Rio Grande, RS, edição de 08/12/2001.

 

PELO DIREITO DOS HOMENS DE SEREM PAIS

 

Entrevistadora: CAROLINE TORMA (Mulher Interativa/Jornal Agora)

Entrevistado: Marcelo Rozas – Psicólogo, presidente da organização não-governamental "Papas per Siempre” - Chile e professor universitário.

 

A mulher é mãe, imaculada pela dádiva da maternidade. Tradicionalmente, quando os casais se separam, no fim de um relacionamento que não deu certo, cabe a ela o direito e dever de criar os filhos, dar-lhes educação, carinho. E os pais, como ficam nisso tudo? Será que realmente é única e exclusivamente a companhia da mãe que os filhos precisam para crescer como cidadãos dignos? É em cima destas questões que o psicólogo chileno Marcelo Rozas, e mais uma centena de homens espalhados pelo mundo, trabalham. Professor da Universidade do Chile, especialista em Psicologia do Desenvolvimento Infantil e Estudos dos gêneros (homens e mulheres) ele esteve em Rio Grande na última semana, após ter participado em Montevidéu (Uruguai) do Encontro sobre a Paternidade no século XXI, e conversou com o Mulher Interativa.

Além de psicólogo, Marcelo também é presidente da organização não-governamental "Papas por Siempre", que reúne pais separados no Chile. Atualmente, na América Latina, várias organizações vêm se formando para discutir o tema como a Associação de Pais Separados (Apase), no Brasil, cujo representante em Rio Grande é José Nestor Cardoso, que também participou da entrevista, juntamente com o belga Willem De Jongh.

Para eles, a legislação na América Latina está muito atrasado no que diz respeito a divisão da custódia entre os pais quando acontece a separação do casal. "A lei é a mesma em todos os países e muitos pais acabam ficando impedidos de verem seus filhos. Em contrapartida, é cada vez maior o número de homens que requerem a guarda de seus filhos, buscando manter o vínculo da paternidade. Até para as mulheres, uma tutela conjugada seria mais justo, já que atualmente sua atuação no mercado de trabalho é cada vez mais intensa", declara Rozas. Conheça agora outras opiniões do profissional sobre o tema:

 

Mulher Interativa: Após a separação, o homem é discriminado?

Marcelo: Com certeza. Embora muitos desejem ficar com seus filhos ou, pelo menos, manterem uma relação direta com eles, a lei não permite. Somente no Chile, dados comprovam que um de cada três crianças não mantém um relacionamento regular com seus pais. No Brasil, as estatísticas não são diferentes.

 

Mulher Interativa: O que deveria ser feito para mudar esta situação?

Marcelo: Primeiro, é imprescindível que a legislação seja alterada. É preciso que haja igualdade de direito para ambos os lados. Pela lei, a igualdade entre homens e mulheres e pais e mães é muito diferente.

 

Mulher Interativa: Que ações têm sido empreendidas pelas ONGs neste sentido?

Marcelo: Estamos realizando campanhas de conscientização, congressos (como este em Montevidéu) e, também, discussões com os legisladores. No Brasil, a Apase já encaminhou uma proposta de projeto de lei à Câmara Federal instituindo o que chamamos de guarda compartilhada.

 

Mulher Interativa: O que é a guarda compartilhada?

Marcelo: Um bom exemplo é o que acontece na França. Lá, após a separação, os filhos vivem em sistema de moradia alternada. Um período na casa da mãe e outro com o pai.

 

Mulher Interativa: Mas isso não desestabiliza a vida da criança?

Marcelo: Aí está mais um preconceito. Nos Países Baixos e nos Estados Unidos e em 37 estados americanos a guarda compartilhada já existe há 25 anos. Portanto, existem pesquisas que mostram sua eficácia. Sabemos que as crianças que crescem neste regime apresentam melhores rendimentos escolares, menores índices de uso de entorpecentes e melhor auto-estima. Além disso, para os próprios pais é mais justo, já que isso diminui os conflitos causados por fatores como o pagamento de pensão alimentícia.

 

Mulher Interativa: Qual seria o princípio básico desta teoria?

Marcelo: É bom que fique claro que não é nossa intenção afastar os filhos das mães e sim garantir o convívio deles com ambos. Quanto a adaptação, a criança, nas diferentes fases da vida, convive em ambientes diferenciados, como a escola, a igreja, a casa dos avós. Eles se adaptam bem a vivência um tempo na casa da mãe outro na do pai e até se divertem.

 

Mulher Interativa: Existem indicadores que provam a eficácia da guarda compartilhada?

Marcelo: Nos Estados Unidos, dos 37 estados onde ela existe é norma obrigatória em 15. Nestes locais, até mesmo o índice de divórcios diminuiu. Isso porque o relacionamento do casal a partir dos filhos pode acarretar uma reconciliação. Pelo que sei, só em Rio Grande acontece mais de 60 divórcios por mês e em 99.9% dos casos os filhos ficam com as mães.

 

Mulher Interativa: Que danos a falta do pai pode causar no desenvolvimento de uma criança?

Marcelo: Dependendo da idade, os efeitos se diferenciam. Quanto menor, pior. Dos 3 aos 5 anos, eles sofrem com angústia, conflitos de lealdade, sentimento de culpa e, até mesmo doenças psicossomáticas, como asma. Dos 5 aos 7, época de maior incidência de separações, os rendimentos escolares diminuem e pode ocorrer o que chamamos de Síndrome de Alienação Parental, ou seja, o filho se alia a mãe, inconscientemente, para denegrir o pai. Já na adolescência, todas as revoltas florescem e eles têm maior possibilidade de envolvimento com drogas, álcool, gravidez precoce e dificuldade de relacionamento com outras pessoas do sexo oposto.

 

Mulher Interativa: A adolescência já é uma fase difícil para todos. Filhos de pais separados têm menos estabilidade?

Marcelo: É nesta época que tudo 'explode'. Acontece um leque de problemas, da timidez a agressividade. A própria delinqüência cada vez mais freqüente entre jovens da classe média é uma prova disso.

 

Mulher Interativa: Quer dizer que a responsabilidade por tudo isso é da mulher?

Marcelo: A mulher fica com toda a responsabilidade de criar o filho e, também, acaba se responsabilizando pelos problemas transcorridos desta criação. No entanto, a culpa não é das mulheres e sim da cultura e da legislação. Estes conflitos seriam mais facilmente resolvidos se pais e mães mantivessem relações mais permanentes com seus filhos. No meu consultório, muitas mulheres me contam que sabem que seus filhos ficariam melhor com os pais. No entanto, sofrem com o preconceito da sociedade. 'O que os outros irão dizer? Estou abandonando meu filho?'. A consciência da mulher sobre a importância dos pais para os filhos é outro desafio.

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