Matéria publicada no Site Bolsa de Mulher em 13/04/2002

 

TEM QUE PARTICIPAR
por Claudia Altschüller


Imagem: Renata de Castro


Não basta ser pai, tem que participar. O slogan da propaganda de um antigo remédio está cada dia mais em voga na nossa sociedade, onde mulheres participam mais intensamente do mercado de trabalho e homens, da educação das crianças. Na teoria é tudo muito bom. Na prática, nem sempre. Esse pai que quer acompanhar a educação dos filhos, muitas vezes, é separado e não se conforma com as visitas quinzenais que são geralmente estipuladas nas varas de família. Haja diálogo, reuniões com advogados e psicólogos e até soluções alternativas para aumentar o convívio entre o pai e a criança. Mas é tudo por uma boa causa.

O microempresário Willian Maia luta há um ano e nove meses pela direito de guarda compartilhada do filho de nove anos. "Antes até havia uma divisão informal da guarda, eu dividia com a minha ex-mulher pontos importantes da educação do Lucas", lembra. "Agora, que tenho um novo relacionamento, a mãe começou a cortar as visitas que fazia a meu filho. É uma retaliação por eu ter refeito a minha vida. Acho que ela está retaliando também o filho dela. Vejo o menino apenas em quintas-feiras e fins de semana alternados. Não quero ser um pai periférico ou apenas um provedor", queixa-se Willian, que se tornou diretor da Associação dos Pais Separados do Brasil (APASE), no Rio de Janeiro, um grupo de auto-ajuda que visa o bem-estar da criança e promove, entre outras coisas, encontros mensais de seus associados.

Para a psicanalista com especialização em psicologia jurídica Maria Luiza de Moura Carvalho, essa luta na justiça é uma forma inconsciente do casal que está se separando manter um elo, e a estrutura judicial é um campo fértil e acolhedor de batalhas. "As pessoas têm dificuldade de admitir que a separação é um soco no estômago e essa dor no estômago precisa de um remédio", explica a terapeuta, que aconselha uma equipe interdisciplinar, composta por assistentes sociais, psicólogos e curadores de família, atuando nas varas de família. Isso garantiria um espaço para o casal falar de suas dores e resolver questões importantes quanto à guarda do filho. Maria Luiza lembra ainda que, na separação, é comum as pessoas confundirem os papéis conjugais com os papéis parentais.

O oficial das forças armadas reformado Euclydes de Souza, 45 anos, está se mudando para Curitiba para ficar mais próximo das filhas de sete e cinco anos. "A mãe delas saiu do Rio quando nos separamos há três anos só para me afastar delas. Eu sou persistente, não desisto, viajo quinzenalmente para vê-las e gasto cerca de mil reais por mês por isso", conta. O esforço do oficial, no entanto, nem sempre foi recompensado. A mãe das meninas simplesmente desaparecia no horário estipulado de visitação. "Houve um tempo que só conseguia ver minhas filhas através de liminar. Em certa ocasião, o juiz perdeu a paciência com minha ex-mulher e chegou a expedir um mandato de prisão caso ela desobedecesse de novo", lembra. Para o bem das meninas, essa fase do litígio já passou. Euclydes luta agora pelo consenso e pelo entendimento. "Tenho medo de apertar demais e ela fugir para Nova York com elas. A nossa comunicação, no entanto, ainda é feita pela troca de bilhetes. A relação melhorou muito desde que começamos a não nos falar diretamente", garante.

Segundo a doutora Leila Torraca de Brito, professora de psicologia jurídica da UERJ, a justiça da área de família no Brasil estabelece na separação uma pessoa como guardião da criança – atribuída em 90% às mães –, e outra como visitante. "Isso acaba conduzindo as pessoas para uma interpretação de que quem fica com a guarda, fica com as atribuições. Na minha opinião não deveria ser assim. Nos três anos de pesquisa que realizo através da universidade, percebi que muitos pais se sentem mal por estarem afastados de seus filhos e de serem colocados como visitantes", afirma. "Quando você coloca um como guardião e outro como visitante, você está elegendo quem é o melhor. Isso acaba criando um clima muito ruim. Aquele que é colocado como visitante se sente como pai de segunda categoria", completa. A professora universitária tem notado que é cada vez maior o número de pais que se organizam para mudar a legislação e criar a guarda conjunta, algo que já existe em países como Suécia, França Inglaterra e alguns estados dos Estados Unidos.

O que a doutora Leila e vários psicólogos e assistentes sociais estão batalhando na prática é incentivar a questão do acordo e da maior participação do pai. "Psicologicamente, é muito importante pai e mãe acompanhando o desenvolvimento da criança. Muitas vezes, a criança, vendo o afastamento do pai, sente isso como uma rejeição a ela", conclui a professora da UERJ. Afinal, segundo a psicanalista Maria Luiza de Moura Carvalho, a cumplicidade dos laços afetivos se dá na convivência.

Guarda alternada

Em algumas famílias, é atribuída a guarda alternadamente ao pai e à mãe, ou seja, a criança passa dias da semana, meses ou anos morando com cada um dos pais. Essa alternância, que é uma modalidade da guarda compartilhada, é bastante polêmica para a psicanalista Maria Luiza de Moura Carvalho. "Alguns profissionais alegam que a criança ficaria sem um referencial. Não há no Brasil muitos estudos sobre o assunto. Na França, porém, fizeram uma pesquisa séria e o resultado foi favorável", afirma.

Segundo a professora Leila Torraca, as pesquisas mais recentes mostram que as crianças não perdem a referência quando dividem seu tempo entre a casa da mãe e do pai. "O mais importante é a criança sentir que tanto do pai quanto da mãe ela tem um espaço afetivo e físico. Muitas pessoas criticam essa solução, dizendo que são códigos educativos diferentes. Mas essa diversidade vai trazer benefício para a criança, que consegue perceber também os códigos diferentes de outras casas que ela freqüenta como a da avó e a do amiguinho. É muito bom para ela entender o mundo e aprender a fazer comparações", explica a professora.

Separada há oito anos, a comerciaria Sandra Rodrigues teve que abrir mão do convívio diário com o filho de 12 anos quando sua loja faliu. "Minha vida sofreu uma mudança de 180°. Fui obrigada a mudar para um apartamento menor no subúrbio, mandei a empregada embora e virei gerente de uma loja do shopping. Não tinha mais condições de arcar sozinha com a guarda do Diogo. Tive que apelar para o pai dele", conta, com uma certa mágoa. Sem passar pelos tribunais ou interferência de advogados, assistente sociais ou psicólogos, Diogo fica com a mãe às terças e quintas e em fins de semana alternados. O maior desejo de Sandra é se estabilizar economicamente e voltar a viver com o filho em período integral.

A rotina de Betty, 11 anos, e Robert, oito, também mudou quando seus pais se separaram há três anos. Metade do tempo eles passam na casa da mãe e a outra na do pai, num bairro vizinho da pacata Ann Arbor, em Michigan, Estados Unidos. Se no Brasil o desejo de uma equipe interdisciplinar monitorando o casal que está se separando ainda é um sonho, em certos estados americanos é uma realidade. O professor universitário Paul Clayton, pai de Betty e Robert, se reuniu com a ex-mulher em diversas ocasiões antes da audiência de separação com o juiz. "Nós tivemos um mediador e negociamos por muito tempo", lembra. "Não houve um conflito maior porque ela não queria e não podia ficar com as crianças integralmente e eu fazia questão de tê-las perto de mim", conta o professor, que fez questão de montar um quarto para cada filho na nova casa e comprar roupas e brinquedos. "Antigamente, havia uma certa confusão com remédios e livros escolares. Hoje em dia, eles raramente esquecem algo na casa da mãe ou na minha. Quando acontece, resolvemos a questão em cinco minutinhos", revela Paul. O caçula, no entanto, às vezes sente saudades da mãe. Mas, nada como um telefonema para contornar a situação.

Ser educado tanto pelo pai quanto pela mãe é um direito da criança. Afinal, filho não é piscina para ter guardião e visitante de fim de semana. Merece atenção, carinho e limite constantes.

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