O GLOBO - JORNAL DA FAMÍLIA - 27/07/2002

Uma geração de homens no papel que um dia foi da mãe
Flávia Oliveira
Marcos Barbato com o filho Lucas no apartamento dos dois, no Rio: ''Tenho mais disponibilidade de tempo. Era natural que ele ficasse comigo depois da separação Foto: Mônica Imbuzeiro

Nem só de mulheres vive a revolução familiar brasileira. O novo homem também não se contenta com o papel clássico do provedor e reivindica o direito de viver com os filhos após a separação. No ano passado, pela primeira vez, o número de pais pedindo a guarda dos filhos ultrapassou o de mulheres na Justiça paulista: 53% dos processos tinham homens como autores. E as famílias formadas por pais com filhos já estão nas estatísticas, envolvendo de 1,5% a 2% dos lares.

— É uma tendência que começa a se desenhar. Mas a maior parte dos homens com filhos ainda tem mãe ou tia vivendo com eles para ajudar na educação das crianças — diz Ana Lúcia Saboia, do Departamento de População e Indicadores Sociais do IBGE.

Desde que se separou da mulher, há cinco anos, o publicitário Marcos Barbato vive sozinho com o filho Lucas, de 7 anos. O pai não precisou recorrer à Justiça para ficar com a criança. Tudo foi civilizadamente negociado entre ele e a ex-mulher, a também publicitária Erica Campbell. Lucas dorme às segundas e quartas com o pai e às terças e quintas na casa da mãe. Os fins de semana são alternados.

- Sempre pensamos no que seria melhor para o Lucas. Eu tenho mais disponibilidade de tempo e é a minha mãe quem fica com ele após a escola. Era natural que ele ficasse comigo, para que a rotina não mudasse tanto após a separação — conta Barbato.

 

Justiça tem decidido a favor dos homens

 

A ex-mulher confirma tudo, mas não esconde que sente culpa por não viver com o filho:

— Decidimos tudo em comum acordo. O Marcos ficou no apartamento e foi ótimo para o Lucas manter seu quarto e continuar com a avó, em vez de ter de conviver com uma babá. Mas sempre que falo com alguém que meu filho mora com o pai, sinto reações estranhas.

Nos casos em que a disputa pelas crianças vai parar na Justiça, a guarda já não é mais automaticamente concedida às mães. O juiz carioca Mauro Dickstein diz que se o pai tiver mais condições de se dedicar ao filho, ele pode sem problemas ficar com a posse e guarda. O importante, assinala o juiz, é o bem-estar da criança:

— A própria Lei do Divórcio e, posteriormente, o Estatuto da Criança e do Adolescente criaram o conceito de que a posse e guarda da criança está muito mais voltada para sua preservação, não só no plano material, mas especialmente no sócioafetivo, vencendo assim os padrões antigos.

Trata-se de mais uma mudança relacionada ao aumento da participação feminina no mercado de trabalho. Quando as mulheres se dedicavam com exclusividade ao lar e à educação dos filhos, tinham mais tempo e condições de mantê-los a seu lado. Hoje sobram situações em que o homem é parte mais disponível do casal.

— Nesses casos, após avaliação social e psicológica, os juízes decidem com quem os filhos devem permanecer — completa Dickstein.

História

 

1979 — Anistia e liberalismo. Com a anistia, o exilado Fernando Gabeira, de sunga de crochê (à esquerda), mostra em Ipanema que o homem pode ser sexy e cultuar o corpo. Neste ano, Gilberto Gil também popularizou o lado feminino dos homens com a canção “Super-homem”. Nos versos ele diz: “Vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria, do que eu quisesse ter. Que nada, minha porção mulher, que até então se resguardara, é a porção melhor que trago em mim agora.É que me faz viver ...”

1998 — Viagra. O primeiro medicamento oral contra a disfunção erétil (impotência) foi lançado em 1997, mas o seu princípio ativo, o sildenafil, foi descoberto em 1991. Mais tarde seriam lançados outros medicamentos orais.

 

Fim dos anos 90 — DNA. O exame de DNA para investigação de paternidade torna-se acessível. No laboratório Sonda, na UFRJ, são realizados 50 testes por mês.

 

2002 — Novo Código Civil. É sancionado pelo presidente Fernando Henrique, mas o Congresso ainda votará centenas de emendas até a sua entrada em vigor, em 2003. Os juristas já o acusam de obsoleto, por não prever a união de homossexuais, a guarda compartilhada e muitas outras mudanças consolidadas na sociedade. Na prática, a Justiça já está à frente do projeto, dando a guarda dos filhos para os pais capazes de garantir o bem-estar das crianças, como foi o caso do ator Felipe Camargo.

 

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