O Globo On Line - 06/08/2002

Aconchego no ninho do pai-coruja

Carlos André segue os passos de Reginaldo Faria/ Foto: Gustavo Stephan


Filho de pais separados, Thiago Della Vedova está acostumado a trocar de cama de vez em quando. Sempre que bate saudade, ele corre para a casa... da mãe. Diferentemente da maioria dos filhos de casais separados, Thiago, de 19 anos, mora com o pai, José Carlos. Se há alguns anos casos como esse não eram comuns, hoje a situação é diferente. Tanto que as famílias formadas por homens descasados que vivem só com os filhos já fazem parte das estatísticas: segundo o Censo 2000, representam quase 2% dos lares brasileiros.

Thiago — que como os outros filhos entrevistados nesta reportagem fez uma homenagem de Dia dos Pais fotografando seu pai para a capa da Megazine — foi morar com José Carlos há três anos. Ele conta que a mãe se casou novamente e teve dois filhos e que a casa ficou pequena. Hoje ele mora num quarto contíguo à casa do pai. Os dois deixam claro que manter a privacidade é fundamental, tanto que penduraram placas com seus nomes na frente de seus “castelos”. É no castelo do pai, durante o almoço, que eles botam o papo em dia.

— É a herança dos antepassados italianos. A gente come e conversa — diz Thiago, que estuda geografia e é do grupo de poetas Dignos de Vaia.

Pedro, irmão de Thiago, preferiu continuar com a mãe:

— Como meu pai e o Thiago saem muito, ia acabar ficando sozinho. E na casa dela tem mais horário, o que eu gosto.

Filho morando com o pai, e não com a mãe, é um resultado das mudanças sociais ocorridas a partir dos anos 60. A psicanalista Sonia Oksenberg, da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, ressalta que hoje homem e mulher trabalham e o que determina com quem ficam os filhos é a vontade dos próprios e a disponibilidade dos pais.

— Antes as mães não costumavam trabalhar e era natural que ficassem com os filhos em caso de separação — diz .

Filho do ator Reginaldo Faria, Carlos André, de 17 anos, morou com a mãe em Brasília até dois anos atrás, quando veio para Rio para, segundo o próprio, curtir o pai e fazer teatro. Deu certo. Carlos André, que está no elenco de “Capitães de areia”, que estréia esta sexta-feira, realiza freqüentemente o sonho de todo iniciante na profissão: conversar sobre teatro com um ator consagrado.

— A gente fala sobre os personagens e ele lê os textos comigo — conta o filho.

— Mas quando ele vai nos meus ensaios fica lendo e não presta atenção em mim — brinca Reginaldo.

Apesar de estar feliz da vida com o pai, Carlos André não esconde que sente falta da mãe. Quando o coração aperta ele voa para Brasília?

— Não. Ela vem para cá.

E não são somente rapazes que optam por morar com o pai. Anitta Amadeo, de 17 anos, diz que, aos 14 anos, escolheu se mudar para a casa do pai, Fernando, para ter mais liberdade:

— Minha mãe é muito mandona. Além disso, na casa dela eu dividia o quarto com meu irmão mais novo.

Fernando diz que é importante dar liberdade para a filha se tornar mais responsável.

— Ela é pequenininha assim mas sabe se cuidar — derrete-se o pai coruja.

Nem todos os filhos se mudam para a casa dos pais para ter mais liberdade. Rodrigo Montenegro, de 19 anos, foi morar com o pai, o fotógrafo Milton, para entrar nos eixos.

— No prédio da minha mãe tinha um play onde eu ficava o dia inteiro de bobeira com os meus amigos. Nós três chegamos a conclusão de que seria legal eu morar com ele. Ganhei mais limites — conta Rodrigo, que mora com o pai há seis anos e toca acordeom no grupo de forró Raiz do Sana.

Eles contam que no começo se desentenderam por causa das rotinas diferentes.

— Hoje ficamos até tarde tocando violão e ele me ajuda com a banda. A capa do CD novo foi ele quem fez — conta Rodrigo. — Também me dei bem porque ele é um ótimo cozinheiro.

Já Thiago não conta com a mesma sorte.

— Ele corre para a casa da mãe quando cansa de comer pizza aqui em casa — brinca o pai José Carlos.

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