Jornal “A Tribuna” – Vitória – Es – 10/08/2002

 

NÃO COMO NOSSOS PAIS

Marcos Antonio de Almeida silva

 

O modelo de família já não é o mesmo de 30 ou 50 anos atrás. Hoje, tanto o homem como a mulher podem expressar seus desejos fora do casamento.

A sociedade construiu um novo modelo de família, que nada mais tem a ver com o modelo vivido por nossos pais. Entretanto, a lei não vem acompanhando, na mesma velocidade, as mudanças impostas por essa nova estrutura familiar.

Exemplo é o da guarda dos filhos após a separação do casal, fato tão corriqueiro nos dias de hoje. No Brasil, por lei, a guarda tende a ficar com um dos pais.

A Constituição de 1988 trouxe como direito a igualdade entre homem e mulher, mas as mães ainda são protegidas e continuam vivendo o privilégio da guarda.

Por cultura e costume, a guarda acaba ficando com ela, que se torna, então, única responsável pela vida dos filhos. Isso reflete uma referência cultural de que só a mãe é capaz de entender e compreender os desejos e necessidades da criança, perpetuando a idéia de que criar filhos é coisa de mulher.

Muitos homens acabam por acreditar que, por serem guardiões visitantes, como define a lei, devem manter-se à distância da educação dos filhos e acabam sentindo-se impotentes, ocupando meramente o papel coadjuvante a eles reservado.

Muitos acabam se afastando do convívio de seus filhos e se tornam exclusivamente provedores financeiros. A separação, que deveria ser apenas conjugal, acaba se tornando parental na medida em que a Justiça estabelece que os pais devem visitar seus filhos de 15 em 15 dias. São, quase sempre, recreadores de final de semana.

Países como Inglaterra, França e grande parte dos Estados Unidos já adotaram há mais de 25 anos a guarda compartilhada, uma saída que privilegia a divisão da responsabilidade com a educação e a criação dos filhos e estabelece a possibilidade de as crianças serem assistidas pelos dois.

A prática evita a exclusão de um dos pais e a conseqüente sobrecarga do outro. Diferente da guarda alternada, em que os filhos têm dois lares e ficam tempos na casa da mãe e tempos na casa do pai, na guarda compartilhada os dois têm a jurisdição da guarda dos filhos e apenas um dos cônjuges tem a guarda física, sendo que pai e mãe têm efetiva e equivalente autoridade legal para tomar decisões importantes sobre a vida das crianças.

O modelo que está em vigor no Brasil, monoparental, de uma certa forma desumaniza a relação de pai e filho, uma vez que os pais deixam de participar da construção do afeto que só o dia-a-dia promove.

No Congresso Nacional tramita um projeto de lei que cria a Guarda Compartilhada.

Mesmo antes de sua aprovação, muitos já estão conscientes desse modelo mais justo e tentam resolver as questões vindas com o fim do casamento informalmente, para evitar que advogados e juizes interfiram nas decisões que cabem ao casal.

Há muitas possibilidades da relação pai e filho se expressar. Mas nenhuma de maior significado e importância do que a experiência de ser "filho no mundo com o pai".

Retirar a presença diária da figura paterna ou materna de certa forma amputa parte da experiência da vida dos filhos, mas também promove no adulto um sentimento de grande frustração e perda.

Quem negocia a questão da guarda após a separação deve levar em conta que saudade não ocorre necessariamente de 15 em 15 dias, como a lei faz pensar.

E ser mais flexível no fixar horários para que pais e filhos, mesmo que separados, exerçam plenamente o direito de construir o amor.

 

Marcos António de Almeida Silva é representante da

Associação de Pais e Mães Separados no Espírito Santo

marcosantonio.a.s@terra.com.br

tel: 3071-1061

 

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