Jornal "Correio Brasiliense" - Brasília-DF - 11/08/2002

Família Brasileira

DARIA TUDO PARA FICAR COM VOCÊS
Ana Lúcia Moura - Da equipe do Correio  

Casados ou separados, os pais enfrentam uma angústia comum: a pouca convivência com as crianças por causa da correria do dia-a-dia. Eles ficam divididos entre a cobrança dos filhos e a necessidade de se dedicar ao trabalho.


Adauto Cruz

O policial Marcos Antunes com os filhos: ‘‘Sinto falta de acompanhar a rotina deles. de acompanhar o dever de casa, de conviver’’

Enquanto alguns pais separados brigam na Justiça para ficar mais dias com os filhos, outros sofrem por não ter tempo de curtir as crianças. Dessa vez, o entrave não é resultado de separação, nem de brigas com a ex-mulher. O que afasta esses pais de seus filhos é o excesso de trabalho. Embora eles morem com as crianças, não conseguem acompanhar a rotina delas de perto.

‘‘Sou pai de final de semana, e olha lá’’, desabafa o motorista de ônibus Pedro Magalhães, 32 anos. Ele é pai de Igor, 5 anos, e Vinícios, de 3. E tem uma jornada de trabalho desgastante. Sai de casa todos os dias às 4h. Às 6h10, tem de estar na Rodoviária do Plano Piloto para dirigir ônibus. Passa a manhã pegando e deixando passageiros nos pontos.

Pedro só pára às 14h30, quando corre em casa para almoçar. ‘‘Quando chego, por volta das 15h30, os meninos já comeram. Faço meu prato e tento dormir meia hora para iniciar a nova jornada, o cansaço é muito grande’’, conta.

A nova jornada começa às 18h15, quando ele tem de estar de volta à Rodoviária do Plano Piloto para sair novamente com o ônibus. Só chega em casa de novo por volta das 21h30. ‘‘Encontro as crianças dormindo, assim como elas estavam pela manhã, quando saí pela primeira vez. Não brinco com elas, não converso, não sei como foi o dia. Estou tão cansado que só penso em dormir’’, revela.

A mulher de Pedro também tem uma jornada dura de trabalho. Ela é auxiliar de enfermagem. Nos finais de semana, Pedro também trabalha. Numa semana, no sábado. Na outra, no domingo. ‘‘Preciso muito do emprego, mas sinto que meus filhos não têm presença paterna e isso é muito triste’’, lamenta.

O tenente da 3ªCompanhia de Polícia Militar Independente (Cpmind) Marcos Antunes, 28 anos, sofre o mesmo drama do motorista Pedro. Ele dá plantões no Complexo Penitenciário do Distrito Federal pelo menos duas vezes por semana, quando trabalha 24 horas seguidas. ‘‘São semanas em que fico quase três dias sem ver meus filhos, porque saio antes deles acordarem e só volto depois das 18h do dia seguinte’’, conta. Ele é pai de três crianças. O mais velho, Matheus, tem 6 anos. A do meio, Thaissa, 5, e a menor, Maria Júlia, apenas 10 meses.

‘‘Sinto falta de acompanhar a rotina deles. De conhecer as descobertas que eles vêm fazendo, de acompanhar o dever de casa, de conviver. Às vezes, os mais velhos me ligam no trabalho, bravos: ‘Mas, papai, você vai dormir aí de novo’. Sinto um aperto no peito quando ouço isso’’, conta. Há ainda os feriados. ‘‘Nunca tenho Natal e Ano-Novo num mesmo ano. Ou tenho um ou outro. Para a família, é difícil entender isso’’, explica. Marcos revela já ter pensado em mudar de emprego por causa dos filhos. ‘‘Mas gosto muito do meu trabalho, e é de onde tiro o meu sustento.’’

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