Jornal "Correio Brasiliense" - Brasília-DF - 11/08/2002

Família Brasileira

A VIDA APÓS A SEPARAÇÃO

Alvo de discussões jurídicas e reivindicação de associações de pais, a guarda compartilhada faz parte da vida de muitos ex-casais. O acordo de participar igualmente da vida dos filhos surge, em muitos casos, de forma espontânea, como resultado da boa convivência entre os pais da criança. Mas há casos difíceis, em que o casal separado não consegue chegar a um entendimento sobre o convívio com os filhos.


Carlos Moura

Kazuo Okubo ficou com os filhos depois que a ex-mulher foi para Londres: agora ela é que sente falta.

Kazuo Okubo

42 anos, fotógrafo

 

Entre luzes, fios e geradores de energia, Kazuo Okubo fala sobre a alegria e a dificuldade de ser pai. Em seu estúdio de fotografia, montado dentro de casa para ficar mais perto dos filhos, ele lembra como foi dolorido ficar sem as crianças após a separação e como elas acabaram indo morar com ele. Kazuo é pai de um menino de 12 anos e uma menina de 6.

‘‘Estou separado há uns quatro anos. Brigávamos muito. Não deu certo. Quando nos separamos, ela mudou para o Sudoeste e levou as crianças. Foi horrível. O trauma da separação e, o pior, o de perder os filhos. Por mais que eu visitasse os meninos, sentia falta demais deles. Algum tempo depois, precisamos vender o apartamento e ela voltou para a casa dos pais. Em seguida, decidiu passar um tempo em Londres. Ficou lá um ano e meio e aí as crianças vieram ficar comigo. Começou então uma fase muito gostosa. Eu podia participar do cotidiano das crianças. Se antes era para a mãe que elas pediam para tomar banho, escovar os dentes, agora era para mim. Isso me faz sentir pai de verdade. Posso conhecer meus filhos de perto, saber o que eles querem e pensam a toda hora. As crianças estranharam um pouco essa história de separação, mas conversamos com elas. Os dois fazem terapia para ajudar. Quando elas vieram para cá, resolvi montar o estúdio em casa para poder ficar mais perto. Mesmo assim, sobra pouco tempo. O dia-a-dia é muito corrido. Uma foto atrás da outra. Às vezes, eles reclamam. Querem brincar e estou fotografando. Mas, trabalhando em casa, tenho condições de acompanhar tudo, o dever de casa, as brigas, as birras, as carências. Tem momentos difíceis. Há situações em que tenho de largar tudo para resolver um problema. Nos últimos 40 dias, por exemplo, o André quebrou o braço duas vezes. Tenho uma babá, que folga dois dias por semana. Nesses dias, eles ficam com a mãe. E ela participa bastante. Tem dias que leva na escola, busca, sai um pouco com eles. Não é só mãe de fim de semana. E ela sofre também, mas como os meninos foram ficando por aqui, achamos melhor continuar assim.’’


Jorge Cardoso

Victor Hugo com as filhas: casal manteve tarefas após a separação.

Victor Hugo Lima

43 anos, funcionário público

 

Em casa, após chegar de uma viagem, Victor Hugo revelou como conseguiu garantir participação quase integral na vida das três filhas depois do fim do primeiro casamento. Ele conta que montou, com a ex-mulher, um esquema de visitas quase diárias e uma rotina de levar e buscar as meninas no colégio ou nos cursos que elas fazem à tarde.

‘‘A separação foi há dez anos e aconteceu sem grandes traumas. Meu único pavor era a distância das meninas. Elas eram muito pequenas. A mais velha tinha sete anos. Era um sentimento de perda muito grande. Mas minha ex-mulher nunca me barrou. Fez questão de manter meu contato com as crianças o máximo de tempo possível. Isso foi muito bom. Mantivemos as divisões de tarefa como acontecia na época do casamento. Um dia eu levo na escola. Ela no outro. Tem ainda os cursos fora o colégio, como aulas de espanhol, inglês, balé. Faço questão de levar. São minutos de trânsito, mas estou perto delas. Vou à casa da minha ex-mulher normalmente, de dois em dois dias. E se passo mais do que isso sem ir, as meninas me cobram. Às vezes, me ligam chamando para ver com elas um jogo de futebol. A mais nova é corintiana roxa. Adora jogo e aí vou para lá, vibro com elas. Há uns dois anos, decidi abandonar um de meus empregos, a advocacia, e ficar só com o trabalho na Câmara dos Deputados. Assim, tenho mais tempo para elas. Há horas que a gente tem de abrir mão de um pouco de trabalho para compensar outras coisas. Porque numa separação, quem fica longe dos filhos sempre está a um passo atrás. E sempre tem de compensar isso de alguma forma por estar perdendo uma parte, que é a convivência diária. Me chamam de pai extremoso. Sou muito preocupado. Mas acho que estou me saindo melhor do que esperava. Achava, por exemplo, que quando as meninas começassem a namorar, eu morreria. Hoje, vejo que a gente muda e aprende com elas.’’

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