Correio Brasiliense - Edição de 12/03/2003

Eles também querem colo

Ficar longe das crianças é o maior problema enfrentado por um grande número de pais recém-separados. Para ajudá-los, integrantes da ParticiPais viram padrinhos de mães e pais órfãos de filhos
Flávia Duarte

 

Kleber Lima

Deirdre, Kleber, Alfredo, Carlos, Rômulo e Marcelo: os voluntários da associação trabalham para ajudar pais separados a enfrentarem a difícil hora de viver longe de seus filhos

Sem em telefone e tampouco o endereço de onde vivem os filhos, o bancário Libório da Cunha, 34 anos, amarga a falta das crianças, uma com 4 e a outra com 1 ano de idade. Separado há três anos, ele bem que tentou, meses atrás, reatar a relação com a ex-esposa. Tentativa frustrada. Com o fim do casamento também veio a distância dos filhos. ‘‘Esse tipo de situação endurece o coração da gente’’, desabafa o pai. Ainda que o coração tente cicatrizar as feridas, Libório encontra forças para ajudar outros pais que compartilham o mesmo drama. Membro da Associação pela Participação de Pais e Mães Separados na Vida de Seus Filhos, a ParticiPais, Libório é padrinho de outras três pessoas que, por causa dos desencontros da vida, tiveram de separar-se da prole.

O programa Padrinhos da Família foi pensado pela ParticiPais com o intuito de receber os recém chegados, cheios de aflição por causa da separação. ‘‘As pessoas nos procuram precisando tanto de apoio jurídico como de amparo psicológico’’, avalia Libório com a sabedoria de quem sentiu na pele a mesma dor. Na prática, o padrinho vira confidente e orientador. ‘‘A maioria dos pais recém-separados precisam mesmo é de alguém para compartilhar as angústias’’, explica Alfredo da Cunha, presidente da ParticiPais.

Se é assim, o padrinho vira psicólogo e amigo. Ele se encarrega de avisar aos afilhados dos eventos organizados pela Associação. Liga para saber como anda o turbilhão de sentimentos. Se preciso, dá até uma forcinha para aquele pai que nunca esteve sozinho com a criança e sequer sabe onde levar a meninada para passear. ‘‘A nossa missão, na verdade é minimizar os efeitos da separação. E o padrinho tem condições disso, pela experiência e pelo fato de já ter encontrado formas de ser forte diante do problema’’, enfatiza Alfredo, que só fica com o filho de 9 anos, a cada 15 dias.

 

Novos lares

 

Há quase um ano, o servidor público Matheus(*), 38 anos, luta para ganhar na justiça o direito de exercer ativamente o papel de pai. Aos poucos, a batalha tem se mostrado favorável. Hoje, os dois filhos, ela com 10 e ele com 7, podem curtir o chamego do pais todas as quintas, sextas e sábados. Tempo bem mais generoso do que as 76 horas liberadas para a maior parte dos divorciados passar ao lado dos filhos. ‘‘Acredito que minha tranqüilidade nas audiências tenha me favorecido para conseguir mais tempo com as crianças. Se eu não tivesse o equilíbrio que tenho hoje, acho que nada disso teria acontecido’’, conclui Matheus.

Quando o casamento acabou, a paz também teve um ponto final. Momentos de desespero vividos por Matheus, foram aliviados pela conversa acalentadora e paciente do padrinho que ganhou quando se inscreveu na ParticiPais. ‘‘A família sempre me deu muito apoio, mas é diferente dividir seus sentimentos com alguém que já tenha passado por um problema semelhante ao seu’’, comenta o funcionário público. ‘‘É um apoio mais racional e menos emocional’’, acrescenta.

Assim como Matheus, é cada vez maior o número de pais que desejam abandonar o título de meros provedores e visitantes de filhos. Querem assumir de vez a paternidade. Participar do desempenho da escola, passear, educar, trocar fraldas, acompanhar os momentos de alegria e tristeza. E não são poucos paizões. Segundo dados do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos dez anos o número de família chefiadas somente por homens aumentou 74,5%.

Dados que justificam a criação de organizações que desejam orientar pais e mães a participarem ativamente da vida dos filhos, ainda que a família já não divida o mesmo teto. Se a ParticiPais comemora um ano de trabalho com 72 inscritos membros cadastrados; a Associação de Pais Separados do Brasil (Apase) surgiu em março de 1997. Inicialmente funcionava apenas em Florianópolis (SC), hoje já conta com representações no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Juiz de Fora. Sem falar na Associação mineira Pais para Sempre, que nasceu há dois anos, em Belo Horizonte.

Associações que orientam não só os pais, mas também as mães que se vêem desligadas da prole. Mulheres que tentam resgatar o convívio com suas crianças. ‘‘Eu criei minha filha durante 15 anos, e foi muito doído ter que me separar dela’’, desabafa a comerciante Regina (*). Sem uma conta bancária tão pomposa como a do ex-marido, ela acabou perdendo a guarda da filha. As personalidades distintas dificultam ainda mais o distanciamento entre as duas. ‘‘Sempre que as coisas ficam difíceis ligo para meu padrinho. Ter alguém que nos ouça é muito importante nessas horas’’, comenta Regina.

Ela procurou a ParticiPais há um ano, depois de ler uma reportagem sobre o assunto. Jamais imaginou existir um grupo de pais com o coração dilacerado como o dela. ‘‘O apoio deles foi muito importante para que eu percebesse o quanto a minha filha é importante para mim’’, conta a mãe que não vê a filha desde dezembro. Se a saudade aperta, é o telefone do seu padrinho na ParticiPais que toca.

(*) A pedido dos entrevistados, os nomes verdadeiros foram substituídos

Para saber mais sobre ParticiPais é só acessar o site www.participais.com.br

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