Jornal “O Povo”- Edição de 20 de abril de 2003 

SEPARAÇÃO E TRISTEZA

Além do trauma de o casamento não ter dado certo, pais são obrigados a viver longe dos filhos

Eduardo Santoro

(colaborou Frini Georgakopoulos) 

A ordem natural das coisas é nascer, crescer, casar, ter filhos, envelhecer e morrer. Tudo isso seria perfeito se não fosse por um pequeno problema entre “ter filhos” e
 “envelhecer”, chamado divórcio. A vida montada em família acaba, muitas vezes, com brigas, e quem sofre com isso tudo são os filhos, presos no meio de visitas, pensões e altos honorários de advogados. É pensando nas crianças que a Associação de Pais e Mães Separados (Apase) trabalha. Ajudando os pais durante o divórcio tanto jurídica como psicologicamente e os instruindo a pensar nos filhos em primeiro lugar.

Filho de pais separados e divorciado da mulher, o presidente da Apase do Rio de Janeiro, Willian Maia, vê a história se repetir e tem tentado de tudo para não colocar seu filho de 10 anos no meio. Willian foi chamado para fundar a Apase no Rio pela própria organização. Ele conta que por ter problemas em ser pai separado, ao procurar na Internet por informações sobre o assunto, achou a organização e se tornou um membro ativo. O símbolo foi escolhido por seu filho.

- Vejo pouco meu filho, mas ele participa de tudo O pior que pode acontecer para pais separados é separar a criança um do outro. Se eles realmente se importassem com os filhos, não brigariam tanto – contou Willian.

A Apase tem cinco anos de existência e possui filiais distribuídas pelo país assim como uma em Lima, no Peru, e uma para ser aberta em Nova Iorque, Estados Unidos. Como divórcio é universal, a ajuda também. O objetivo da organização é lutar pela guarda compartilhada, onde ambos os pais, após o divórcio, dividem tanto os deveres como os direitos sobre os filhos. A guarda pode ser única, muitas fezes ficando com a mãe, mas o filho deve ter acesso ao outro a qualquer hora. Ambos os pais decidem em que escola os filhos estudar, que atividades extracurriculares irão praticar e assim por diante.

- Parece fácil, mas não é. Digamos que o filho vá morar com a mãe e o pai é o responsável pelo pagamento da escola. Muitas vezes, por vingança ao ex-marido, a ex-esposa matricula o filho em uma escola muito mais cara. Isso é comum acontecer – contou Willian.

 

SENTIMENTO DE ABANDONO

 

Divórcio é doloroso tanto para as crianças quanto para ambos os lados que estão desistindo de uma vida a dois. Muitas vezes a separação é amigável e sem discussões, mas outras vezes a situação se complica. As brigas durante o divórcio dos pais podem causar grandes danos à criança. Segundo a psicóloga Stella Olyntho, muitas crianças se sentem abandonadas após os pais terem se separado.

- A rotina muda, mas a criança se adapta. O problema é quando elas sentem que não é uma separação entre marido e esposa, mas sim entre pai e filho – explicou.

- Esse sentimento não tem idade. Mesmo que a separação venha acontecer após o filho ou filha já ser adolescente, a falta que sentem dos pais é grande.

Foi o que aconteceu com a jovem M. Seus pais se separaram quando ela tinha 17 anos. A traição de seu pai foi o motivo do divórcio. Hoje, com 24 anos, M. vive com sua mãe, e vê o pai quando quer, mas não freqüenta sua casa, pois não fala com a namorada dele. A jovem fica magoada toda vez que seus pais discutem por intermédio de advogados sobre pensão e outros pagamentos.

- Ele não é mais marido da minha mãe, mas é meu pai. Acho que às vezes ele esquece disso – confessou M.

Segundo psicólogos, o que M. sente é perfeitamente normal e explicam que como ela era muito apegada ao pai, ao cometer adultério ele não apenas traiu sua mãe como a ela também. Willian conta que nos mais de 50 e-mails e telefonemas que recebe por dia, a maior reclamação vindo de pais é que a ex-esposa não os deixa ver os filhos, se fazendo proprietária deles, e de mães, que o ex-marido não se interessa mais na vida dos filhos.

- Um reclama do outro e quem sofre mais é a criança. Muitos filhos de pais divorciados contam que se sentem órfãos de pais vivos – contou Willian.

O diálogo é o que é mais recomendado durante o divórcio. Profissionais da Apase atendem casais que estão em processo de divórcio ou já se divorciaram, buscando o bem estar dos filhos do casal acima de tudo. Após o divórcio, o ideal é a criança ter convívio amplo com ambos os pais, morando com um, mas tendo acesso ao outro. Willian aconselha a nunca, mesmo que os pais se odeiem, falar mal um do outro para o filho. Isso pode causar segundo o psiquiatra Richard Gadner, a “Síndrome de Alienação Parental”, onde a criança odeia um de seus genitores sem razões. Essa síndrome é muito grave, pois pode ser alimentada e o resultado é o ódio sem precedentes do filho por um de seus pais, trazendo conseqüências ao formar sua própria família. O que começou por amor não deveria terminar com ódio.

 

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