Revista Crescer - Agosto de 2003

Pai-herói

Os homens estão mais próximos dos filhos. Beijam, abraçam, dão colo, vão às reuniões da escola, contam história, brincam, fazem ninar. Querem carinho e reconhecimento. Como as mães

Patrícia Cerqueira


Há 40 anos, pai só brincava com o filho quando ele começava a andar. Eram raros os que trocavam fralda, levavam ao pediatra ou cuidavam da criança sozinhos. Hoje os homens estão mais confiantes de que também sabem embalar um recém-nascido, perceber seus choros e suas necessidades. Esse novo tipo de envolvimento masculino é resultado, principalmente, da conjuntura econômica. A mulher saiu de casa em busca de trabalho - o homem entrou por causa do desemprego. 'Como as mães não estão mais no lar, criou-se um vácuo que precisava ser preenchido', afirma o psiquiatra Luiz Cuschnir, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Esse espaço começou a ser ocupado timidamente pelos homens. 'Hoje estamos na segunda geração de pais mais participativos. A primeira tem seus 40 anos', garante a feminista e editora Rose Marie Muraro.

Ao ficarem mais próximos dos filhos, os homens estão sendo surpreendidos por emoções que antes eram das mães, como angústia, frustração e estresse. Estudo feito por Cuschnir, em 2002, revelou que a maioria está mais sensível ao desenvolvimento dos filhos e preocupada em conciliar trabalho e família. O pai de hoje reclama da licença-paternidade brasileira de 5 dias corridos. Deseja, no mínimo, 30, como é na Suécia. Uma proposta chegou a ser apresentada no Congresso brasileiro em 1998. Ficou parada e caiu no esquecimento. Este homem sensível também quer ser reconhecido pelos filhos como alguém que dá amor e não um mero cuidador. Luta por espaço no coração dos herdeiros. Por isso sofre quando vai acudir o filho e recebe em troca berros porque o pequeno deseja o colo materno. Muitos chegam até a se questionar se realmente são bons pais. 'É uma mudança importante, mais até do que as tecnológicas, pois se refere a costumes, tradições', diz Rose Marie Muraro.

 

Fonte de prazer

Novos passos ainda precisam ser dados. Os cuidados com os filhos ainda são vistos como obrigação das mães. 'Porque o homem acha a mulher mais competente para criar os filhos, acredita que ela já nasce pronta para ser mãe, tem Ph.D.', avalia a psicoterapeuta Verônica Cézar-Ferreiro. 'Já o homem cuida do filho porque lhe dá prazer', completa. Isso explicaria por que, às vezes, eles adotam uma postura de 'não é comigo' em relação a certos cuidados, como, por exemplo, dar banho, e ficam com a parte mais light da educação. 'Essa postura tem justificativa histórica', afirma o psicanalista José Inácio Parente, 61 anos, criador do site www.pai.com.br. Ele explica que família é um termo originário do latim famulus, que quer dizer 'conjunto de servos e dependentes de um chefe ou senhor'. Entre os tais 'dependentes', estavam a esposa e os filhos. 'Por carregar esses resquícios patriarcais, o homem sente-se no direito de querer ficar com a parte boa. Ainda que a mulher trabalhe a mesma quantidade de horas que ele, quando chega em casa, à noite, quer ser servido', diz o psicanalista. No futuro, ele acredita, os papéis de pai e mãe serão mais equilibrados. A mulher deixará de arcar com as jornadas duplas e o homem não ficará só com a parte divertida do cuidado com os filhos.

Reclamações à parte, eles estão surpreendendo e sendo incentivados. Grupos de apoio aos pais espalhados pelo mundo tentam conscientizá-los de sua importância na vida doméstica. Os homens cada vez mais têm expressado o prazer da paternidade em livros. Este pai menos repressor e mais afetuoso leva o referencial masculino - prático, utilitário, racional - para uma seara tradicionalmente feminina. E dá aos filhos a chance de conhecer seu modo de ser e de viver. Sorte das crianças. Bom para as esposas, que ficam menos sobrecarregadas. Leia a seguir algumas histórias destes novos pais da família brasileira:

Fotos: Fernando Martinho

 

Fonte:

VOLTAR