Niterói - RJ - 04/10/2003

O lamento que parou a cidade

Com medo de ser preso, desempregado ameaça se jogar do vão central da Ponte. Rapaz se entrega após deixar o trânsito caótico


Bombeiros mobilizaram 25 homens para evitar que Cidálio se jogasse


O protesto provocou engarrafamento na Ponte e em vários bairros

 

O desespero de parar na cadeia pelo não-pagamento da pensão alimentícia ao filho Daniel Felipe, 8 anos, fez com que Cidálio Corrêa Lopes, 26, ameaçasse se jogar do vão central da Ponte Rio-Niterói ontem à tarde. O “lamento de um cidadão desesperado”, como ele mesmo chamou, parou boa parte do trânsito do Rio por pelo menos três horas. Quatro equipes dos bombeiros foram acionadas. Duas delas, por mar. Até um helicóptero entrou em ação. Ao todo, 25 homens participaram do resgate. Cidálio só desistiu por volta das 19h30.

O jovem foi convencido pelo coronel Carlos Alberto de Carvalho, comandante-geral dos Bombeiros. Numa das mãos, ele tinha uma faca presa ao punho com fita crepe. Na outra, um facão. Cidálio, que passou o tempo todo sentado no muro de proteção, estava com uma corda no pescoço amarrada a um poste.

Homem sugeriu ser contratado pelo tráfico

Antes de rumar para a Ponte, Cidálio enviou à imprensa carta-desabafo dirigida à população do Rio. Além de narrar o desespero pelo fato de estar desempregado, informava quatro reivindicações: mudanças na legislação referente ao Direito de Família, liberdade para presos por falta de pagamento de pensão alimentícia, prisão de todos os fraudadores dos cofres públicos e um emprego decente. No bilhete, o jovem dizia que só deixaria a Ponte morto ou empregado. E, caso não conseguisse oportunidade em sua área profissional, pediria que algum traficante o contratasse ou o adotasse: “Tenho vários treinamentos de guerrilha, que aprendi no Exército, e, se for preso, será por um bom motivo”.

Uma das quatro pistas do vão central ficou interditada. E enquanto bombeiros tentavam convencer Cidálio, o trânsito deu um nó. Curiosos que paravam para acompanhar as negociações provocaram um megacongestionamento ao longo da Ponte.

Os reflexos foram sentidos no Elevado da Perimetral, nas avenidas Francisco Bicalho e Presidente Vargas, a partir da Praça 15, Aterro do Flamengo, Avenida Brasil, Linha Vermelha, São Cristóvão, Benfica, Avenida Radial Oeste, Praça da Bandeira, Avenida 1º de Março, Avenida Atlântica, em Copacabana, São Francisco Xavier e Marechal Rondon.

Cidálio chegou à Ponte por volta das 15h30 e contou ser motorista profissional e estar desempregado há três anos. Desde então, não paga a pensão – estipulada em R$ 168 (70% do salário mínimo) – ao filho. Comandante das Unidades Especializadas do Corpo de Bombeiros, coronel Marcos Aurélio Silva, conversou com ele por telefone. “Ele dizia o tempo todo que não queria ser preso. Tinha as idéias organizadas e não parecia perturbado mental”, afirmou o coronel. Cidálio foi levado para o PAM da Avenida Venezuela, no Centro, para avaliação psiquiátrica.

 

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