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Diário de Notícias da Madeira, Portugal, edição de 18 de Março de 2005

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Quando os pais querem partilhar os filhos

Os tribunais continuam a dar preferência às mulheres, mas os homens de hoje estão cada vez mais presentes na vida dos filhos.

Pais com filhos pela mão, a empurrar carrinhos de bebé ou com crianças ao colo. As imagens são cada vez mais freqüentes nas ruas, mostrando que os homens assumem sem complexos nem enfados o papel de pai. Isto mesmo quando os tribunais, em caso de divórcio, continuam a entregar a custódia das crianças às mães.

Figura essencial na estruturação da personalidade de uma criança, os dramas dos pais de hoje – cujo dia se assinala amanhã – são outros e começam na partilha e na disputa de afectos. Ao abrir o espaço doméstico aos homens, as mulheres a abrir os afectos aos pais que estão disponíveis para a partilha de tarefas, mas também para a disputa do poder paternal. O mundo moderno tirou tempo às famílias, mas deu a muitas crianças de hoje um pai presente, uma nova fonte de carinho e amor.

João Correia, responsável pela Associação de Famílias Numerosas na Madeira, reconhece que, nos primeiros anos de vida, a relação entre filho e mãe é muito próxima. É uma questão física que, quer se queira quer não, não se ultrapassa. No entanto, a partir dos três anos, o pai é essencial para o desenvolvimento da criança, seja rapaz ou rapariga.

No entanto, João Correia, que é também director regional do Saneamento Básico, nunca faltou às suas obrigações de pai, mesmo quando os seus filhos eram pequenos. O projecto de criar uma família grande foi do casal e, por isso, esteve sempre presente. «É verdade que, há 18 anos, quando o meu filho mais velho nasceu, as pessoas olhavam para trás quando me viam com ele no marsupial». Nessa altura, vivia em Lisboa, dava aulas e levava o filho para as reuniões de notas porque não tinha onde deixá-lo.

A partilha de tarefas e responsabilidades manteve-se pela vida fora, acentuando-se ainda mais conforme foram nascendo mais crianças. Sem complexos, sem nunca se sentir diminuído. Uma vez, conta, numas férias da Páscoa, teve que meter férias para ficar a cuidar dos filhos e da casa. A mulher tinha reuniões, a empregada não pôde vir. A solução foi ficar em casa. «Não gosto de fazer, mas alguém tinha que fazer almoço e jantar, tratar da roupa, dessas coisas da casa».

A verdade é que, de certo modo, a mudança social que levou as mulheres para o trabalho fora de casa ajudou os pais a aproximarem-se dos filhos, sendo-lhes quase exigido que estivessem presentes na vida dos filhos, no seu crescimento, na sua educação. «Não tenho dúvidas que essa é uma das coisas boas do nosso tempo».

O tempo escasseia, as pessoas fazem tudo à pressa, mas as novas gerações têm um pai muito mais presente e afectuoso. Uma presença outras gerações não tiveram, já que os papéis eram mais rígidos. Na família, pai e mãe têm cada vez um papel mais igual, mais próximo. E, ao contrário do que parece ser voz corrente, João Correia garante que, pela experiência que tem, isto é cada vez mais frequente. «Basta olhar para a rua e perceber que os pais têm orgulho nos filhos, em estar com os filhos».

Mesmo quando as circunstâncias da vida alteram a estrutura da família essa presença não desaparece. Também aí, dos casos que conheceu de perto, o responsável regional da Associação de Famílias Numerosas refere que são muitos os homens que querem continuar a participar da vida dos filhos, querem educá-los, vê-los crescer e que estão dispostos a lutar por isso.

A lei portuguesa não determina que os filhos fiquem com a mãe ou com o pai.

A decisão, em caso de divórcio dos pais, cabe ao tribunal, que terá que ponderar o que é melhor para o menor: se ficar com o pai ou com a mãe. A opção maioritária, de acordo com a experiência empírica do advogado Tranquada Gomes, é por entregar as crianças à guarda da mãe.

O que, quando se trata de crianças de tenra idade, se compreende, refere o  advogado. Embora a sua carreira o tenha encaminhado para outras áreas do Direito, a impressão que tem é que, na hora do litígio, as crianças são usadas na disputa entre os pais. O que nem sempre é sincero da parte dos homens. Nem todos estão realmente conscientes do que significa tomar conta de um menor, que exige atenção e cuidados, para além de uma vitória pessoal em tribunal.

Conforme lembra Tranquada Gomes, o tribunal, nestas situações, tem que ponderar com quem é que a criança fica melhor. E nisso, quase sempre, as mulheres estão dispostas a fazer mais sacrifícios do que os homens. Por questões de ordem física, que começam na gravidez e que se prolongam na vida por motivos de ordem cultural. «Os pais, de uma maneira geral, tendem a refazer a vida mais facilmente, de modo mais desprendido».

A impressão que fica é que os tempos são de mudança. Os homens estão mais disponíveis, mais presentes na educação dos filhos. Há uma parte que, quando o casamento acaba, não quer perder o direito a vê-los crescer. Os pais de hoje são diferentes e não é apenas porque lhes dão banho, mudam fraldas, vão ao médico e assistem às reuniões de pais do infantário e da escola. É porque esses pequenos gestos criam laços poderosos, como as mulheres muito bem sabem há milhares de anos: «A mão que embala o berço comanda o mundo».

Um dia para lembrar os direitos dos homens: Os pais ainda têm muitas dificuldades em partilhar a educação dos filhos com as mães.

Os comportamentos mudaram. Os pais de hoje mudam fraldas, levam os filhos à creche, participam na educação, querem vê-los crescer, mas, ainda assim, na altura de discutir a custódia, os tribunais continuam a optar por entregar o poder paternal às mulheres. E, por isso, Emanuel Alves, psicólogo, entende que o Dia do Pai deve ser aproveitado para chamar atenção para os direitos dos homens em relação aos filhos.

O psicólogo refere que o direito a partilhar o poder paternal é, em muitos países europeus, uma ilusão, mesmo quando a lei não discrimina os homens. O certo é que, por norma, o tribunal entende que é melhor que a criança fique à guarda da mãe. «Então um pai será pior educador do que uma mãe porquê?», refere Emanuel Alves, salientando que esta é uma das maiores lutas dos homens de hoje.

No Reino Unido, por exemplo, os pais reuniram-se em torno de uma associação que promove actos insólitos para chamar a atenção para os direitos dos pais. Aparecem vestidos de super-heróis, em prédios altos, em monumentos, tendo chamar a atenção para a sua causa.

Em Portugal, os homens, segundo o psicólogo, travam uma luta silenciosa, nos tribunais, pedindo para terem direito a participar, de forma plena na educação dos filhos. Às vezes, o pai apenas parece essencial enquanto há uma relação estruturada.

Aliás, Emanuel Alves lembra que se tende a confundir certos papéis. Hoje, dada a evolução da sociedade, associa-se a um bom pai aquele que ajuda a mãe, que muda fraldas, que partilha tarefas domésticas. Na verdade, «isso não quer dizer que vá ser melhor ou pior pai. Isso, em primeiro lugar, significa que é um bom companheiro, que partilha as tarefas». Os afectos, a presença ou ausência da figura paternal não se podem avaliar por isso.

Muitos pais, explica, são ausentes, desligados dos filhos, mesmo quando estão em casa sempre, partilham hábitos, jantam e almoçam juntos. E o contrário também é verdade. O pai não presente, mas mesmo assim elemento estruturador de toda a família. Isso acontece em casos de divórcio, em que o pai sai de casa, mas continua atento, presente nos momentos mais importantes da vida dos filhos. «Acontecia connosco consequência sobretudo da emigração. O pai não estava, mas era lembrado sempre como aquele que estava a trabalhar pela família».

Não se pode negar, no entanto, que o papel do pai mudou muito nos últimos 40 anos, com a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Como já foi referido não tanto pela partilha, mas sobretudo pelo que isso favoreceu a aproximação dos homens dos filhos. O que antes não acontecia, já que os papéis estavam estabelecidos de forma rígida: os homens trabalhavam; as mulheres ficavam em casa a tomar contas das crianças.

 

Marta Caires 

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