íntegra – Revista da Rede Integral de Ensino

Edição número 5 – março 2005

AMOR COMPARTILHADO

Casais separados conseguem estabelecer acordos em que dividem harmoniosamente responsabilidades, despesas e o convívio com os filhos.

Separados há três anos, a psicóloga Viviane Morelato Minto e o empresário Airton César Minto são representantes de um grupo de pais que souberam superar os conflitos, as mágoas e os desgastes de uma separação, e conseguiram preservar um harmonioso relacionamento entre ambos e com os filhos. Em vez de decidir nos tribunais sobre quem ficaria com as crianças, optaram por dividir responsabilidades, despesas e a convivência com os filhos Edson, de 14 anos, e Ariadne, 11 anos.

Embora ainda sem reconhecimento legal – já que no papel a justiça brasileira determina que a guarda deve ficar com o pai ou a mãe -, esse arranjo informal, chamado de “guarda compartilhada ou conjunta”, é fruto exclusivo do bom senso de pais descasados que desejam conservar os laços familiares, ainda que morando em casas separadas.

“Deixamos de ser marido e mulher, mas preservamos o papel de pai e mãe. Isso é fundamental Para a tranqüilidade deles”, salienta Viviane, referindo-se ao receio que os filhos tinham de perder o amparo dos pais.

Casados por 14 anos e divorciados há 3 anos, Viviane e Airton contam que, desde o início do processo, houve um consenso de que os filhos precisavam ser resguardados. A própria separação decorreu do reconhecimento, por ambos, de que as diferenças que desgastavam a convivência contínua acabariam por prejudicar as crianças.

“No início da separação, tudo é estressante. Mas conseguimos superar o período de crises sem afetar o nosso relacionamento e, sobretudo, as relações de cada um com os filhos”, observa Airton.

Ele e Viviane se revezam para ajudar os filhos a cumprir uma extensa agenda de atividades escolares e recreativas, e administram uma conta bancária conjunta para as despesas da prole. A programação estabelecida é flexível para atender eventualidades, como viagens e compromissos profissionais dos pais.

 

Viviane, Ariadne, Edson e Airton: relacionamento familiar preservado após a separação

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Diálogo franco

A assistente jurídica Flávia Valente e o metalúrgico Santino Baron Junior separaram-se após nove anos casados e também conseguiram, pacificamente, compartilha tempo e responsabilidade para poderem estar igualmente presente no cotidiano do filho Marcelo Valente Baron, de 5 anos.

“Existe um acordo no papel, mas o que prevalece é o acordo verbal”, afirma Flávia. “Com a divisão, também sobre mais tempo para cada um cuidar da própria vida pessoal, sem que se sinta sobrecarregado por ser o guardião da criança”, salienta Santino, que hoje tem uma nova mulher, Sandra.

O diálogo franco ajudou o filho a entender a nova situação familiar, revela Santino.

“Conversamos abertamente, mesmo ele sendo pequeno. Disse que o papai e a mamãe não iriam mais namorar e que, mesmo saindo de casa, eu não deixaria de amá-lo e nem de vê-lo”, conta o pai. “Fiz o mesmo quando precisei explicar que a Sandra não iria substituir a mãe verdadeira dele, mas que ele também deveria obedecê-la e respeitá-la.

Segundo o casal, não existe problema de convivência entre os quatro e mais Natália, 16 anos, filha de Sandra e “irmã de coração do Marcelo”.

“Pelo contrário, há carinho e atenção mútuos. Quando é preciso, a Sandra também pega o Marcelo na escola e participa de festas em que estamos presentes”, esclarece Santino.

Flávia e Santino conseguem estar presentes no cotidiano do filho Marcelo

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Pais lutam por maior convivência

Os casos de separação sem conflitos ainda são considerados raros, e quando uma das partes questiona a tutela de um filho, geralmente os processos se transformam em batalhas judiciais intermináveis. O tipo de guarda mais comum é aquele que segue a jurisprudência dominante, ou seja, guarda exclusiva da mãe e visitas quinzenais do pai em finais de semana alternados. Indignados, pais descasados cavam trincheiras contra o que consideram uma discriminação.

“Não reivindicamos exclusividade: apenas queremos conviver mais com nossos filhos”, desabafa o empresário Ademar Arantes, diretor da representação paulista da Associação de Pais e Mães Separados (www.apase.org.br), uma Organização Não Governamental (ONG) criada para defender a igualdade de direitos entre homens e mulheres nas relações filiais após o divórcio. Divorciado, pai de Ademar Neto, 13 anos, e Ruth, 9 anos, Ademar ampliou a duras penas seu espaço de convivência com os filhos, mas ainda não está satisfeito.

“É crescente o número de homens pedindo a guarda dos filhos ou a ampliação do regime de visitas”, constata a advogada Sandra Regina Vilela, especialista em Direito da Família. “Os homens querem cada vez mais sair da mera condição de provedor financeiro e participar ativamente na criação dos filhos”, comenta.

Citando estudos internacionais, Sandra argumenta que a guarda exclusiva é fator de distanciamento daquele que assume o papel de “visitante”. Na França, um terço dos pais que tinham visitas a cada 15 dias perdeu o contato com os filhos. Outra pesquisa mostrou que, nos EUA, os pais que vivem num sistema de guarda conjunta física são aqueles que contribuem mais para o pagamento de despesas extras dos filhos, além da pensão determinada judicialmente.

“Muita gente acha que a criança não pode perder o vínculo com um lar. O referencial a não ser perdido é o dos pais”, pondera o psicólogo Evandro Luiz Silva, que tem atuado como assistente técnico e mediador em processos da vara de família. Segundo ele, a criança amada, que confia nos pais, consegue administrar bem sua nova rotina e vai adaptar-se à nova vida.

“Privar os pais ou um deles de estarem presentes no cotidiano dos filhos, é traçar para estes o pior dos prognósticos”, sentencia o especialista.

Ademar Arantes, da Apase, com os filhos Ademar Neto e Ruth

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Quinteto feliz

 O programador de sistemas Alex Krutzfeldt separou-se há seis anos da advogada Tânia Tosetti, após nove anos de casamento, e vive um novo relacionamento com a secretária Patrícia Santos, também divorciada, o que não o impede de conviver numa boa com a ex-mulher. Ambas são muito amigas e se revezam nas atenções aos garotos Augusto, de 9 anos, filho de Alex e Tânia, e Matheus, de 8 anos, fruto do primeiro casamento da Patrícia.

“Somos muito felizes e as pessoas custam a acreditar que consigamos conviver tão bem”, observa Tânia. “Mas reconheço que o nosso caso é pouco ortodoxo num universo de separações freqüentemente caracterizado pelo rancor e pela rivalidade entre as partes.”.

Para ela, o relacionamento com Alex foi preservado porque perceberam, a tempo, que insistir num casamento que não dava mais certo acabaria prejudicando a amizade entre ambos. “Éramos mais companheiros do que marido e mulher”, confidencia.

A convivência sem ressentimentos posterior à separação permitiu que, um ano depois, o ingresso de Patrícia e Matheus ocorresse naturalmente na vida do ex-casal, e provocou situações que hoje eles consideram hilárias.

“No período de namoro, o Alex brigava com a Patrícia e era no meu ombro que ele vinha chorar”, lembra Tânia. Patrícia, por sua vez, demorou a aceitar o vínculo entre os ex-cônjuges, já que vinha de uma separação “a ferro e fogo”, como ela define, e achava que descasados não conseguiam manter um bom relacionamento como aquele.

Os garotos, conta Alex, imediatamente adotaram-se como irmãos, e quando alguém pergunta onde moram, respondem que têm dois endereços.

“O legal de ter duas casas é poder brincar com brinquedos diferente”, dizem os meninos quase em uníssono.

Tânia já teve dois namorados (que a família fez questão de conhecer) e argumenta que, para a educação das crianças, o mais importante não é o modelo familiar adotado, mas sim asa atitudes capazes de lhes proporcionar amor e segurança.

Matheus, Alex, Patrícia, Tânia e Augusto (a partir da esquerda): o mais importante não é o modelo familiar adotado
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Perda faz nascer nova família

A jornalista Vanessa Taufic Gallo estava casada há cinco meses com o fotógrafo Humberto de Castro e, de repente, virou mãe de coração de duas meninas, Carol, de 8, e Luana, de 6 anos. A mãe biológica, ex-esposa do fotógrafo, faleceu em um acidente de automóvel e, literalmente da noite para o dia, Vanessa e Humberto tiveram de reformular todo o projeto de vida do casal. Era o início de uma nova etapa, principalmente para as duas garotas, que até então sempre moraram com a mãe natural.

“Foi uma grande mudança, mas todos nós crescemos, todos aprendemos e passamos a ver a vida com outros olhos”, diz Vanessa, resumindo as transformações e desafios que tiveram de ser enfrentados sem subterfúgios. O que facilitou muito, segundo a jornalista, foi a relação que ela procurou ter com as meninas, desde quando ainda era a “namorada do papai”, quando o fotógrafo já estava separado da primeira esposa.

E a relação, esclarece, era a de amizade franca e sincera. “Sempre salientei, desde o início, a disposição em ser amiga”, diz ela. “Lógico que, quando as meninas passaram a morar conosco, o que antes era basicamente saída de lazer com as meninas também passou a incorporar as obrigações, as responsabilidades, e ai a questão fica mais complicada”, observa Humberto.

Quando passou a dividir com o marido a responsabilidade de criar e educar as meninas, Vanessa procurou deixar a situação muito clara, traduzida em um maduro pacto de convivência. “Buscamos deixar as meninas conscientes de que ninguém iria ocupar o lugar da mãe delas. Ela sempre foi a mãe, ela que as trouxe ao mundo, as criou e amou. Essa página não deixará de existir em suas histórias. Eu seria a mãe de coração, de afeto, que lhes daria carinho e ajudaria em sua formação, mas o papel da mãe natural não seria substituído”, salienta a jornalista.

A relação de amizade com as meninas, estabelecida desde o início, antes mesmo do casamento com o pai delas, foi de fato essencial para auxiliar na “nova vida”, sublinha a jornalista. “Hoje elas estão muito mais próximas da Vanessa, se identificam com ela, isso até gera em mim um ciúme sadio”, reconhece Humberto, deixando a esposa sem jeito ao completar: “Mas isso também foi conseqüência de ela ter assumido muita coisa. Se não fosse ela, não sei como teriam sido as coisas”.

Carol, Vanessa, Humberto e Luana: aprendizado e amadurecimento no dia-a-dia

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Na tela, nos livros e quadrinhos

Cinema e literatura freqüentemente abordam o divórcio e a desagregação da estrutura familiar.

No filme Kramer x Kramer, vencedor de 5 Orcars, o ator Dustin Hoffman é um pai de família que se vê forçado a trabalhar e, ao mesmo tempo, cuidar do filho pequeno, após a decisão de sua mulher (interpretada por Meryl Streep) de se separar dele. Com a proposta de oferecer uma auto-ajuda para os filhos de pais divorciados, foram lançados recentemente dois livros: Meus pais se separaram. E agora? De Cynthia MacGregor (Novo Século Editora) e Tenho duas Casas, de Cristina Von (DeLeitura Editora). Até nos quadrinhos a situação está presente: pos pais do personagem Xaveco, de Maurício de Souza, são separados.

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“Muita gente acha que a criança não pode perder o vínculo com um lar. O referencial a não ser perdido é o dos pais”, pondera o psicólogo Evandro Luiz Silva.

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