O Estado de São Paulo - Edição de 10 de outubro de 2004

FILHOS DE PAIS SEPARADOS, SIM, COMO NA VIDA REAL

Livros e até gibis passam a incluir o divórcio em suas páginas, com o desafio de buscar a harmonia.

Simone Iwasso

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A mãe de Simon anuncia que ele ficará com o tio nesta noite. Stephanie ganhou três novos irmãos de uma só vez. Luciana tenta entender por que o pai arrumou uma namorada. Thomas tem duas casas. Renato e Flavinha decidem conhecer como são as famílias dos alunos e funcionários da escola onde estudam.

 São seis crianças e adolescentes que tiveram de incluir em seu processo de amadurecimento a aceitação de uma nova configuração familiar, após a separação dos pais. Apesar de inseridos em uma mesma situação, são originários de mundos completamente distintos.

Stephanie e Thomas moram em São Paulo, vão à escola todos os dias e aprendem a entender o ambiente em que vivem. Já Simon, Luciana, Renato e Flavinha são personagens fictícios, protagonistas de lançamentos editoriais que mostram que o preconceito com o divórcio ficou preso a décadas passadas e o desafio atual é a busca pela harmonia, sem modelos certos ou errados.

Representam a inclusão da temática em produtos voltados para as próprias crianças – até então, as prateleiras das livrarias estavam repletas apenas de títulos que buscavam orientar, analisar ou confortar os adultos envolvidos na questão e os profissionais e pesquisadores que se dedicavam ao tema.

 “Uma história bem contada ajuda crianças e adolescentes a entenderem as várias nuances das relações familiares. Formam um ponto de identificação”, afirma a escritora e professora Anna Cláudia Ramos, autora do livro infanto-juvenil Não é Bem Assim a História (Editora Difusão Cultural do Livro, 45 páginas, R$ 18,00). “O livro não diz se as situações são boas ou ruins, mas tenta mostrar que a família pode ser como é, desde que seja boa”.

Mãe de dois filhos pré-adolescentes e separada há oito anos, Anna conta que escreveu o livro após ouvir relatos de familiares e conhecidos. Seu objetivo, diz, é transmitir para os leitores a percepção de que “a vida não vem com um manual de instrução”.

Para isso, criou Renato, um pré-adolescente inconformado com a notícia de que seus pais não vão mais viver juntos, e Flavinha, a amiga disposta a mostrar que há outras formas de convivência familiar. Juntos eles encontram pessoas que têm relatos tristes e felizes: a criança que não conhece o pai, a que se sente abandonada mesmo com todos os integrantes morando na mesma casa, a que conheceu a família depois de anos procurando, a que mora com os pais do mesmo sexo.

 Exemplos de modelos cada vez mais presentes e aceitos na sociedade brasileira desde a instituição do divórcio, em 1977. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1984 foram 62.500 divórcios no País – desses, 52 mil ocorreram em casais com filhos. Em 2002, os números saltaram para 97.200 no total, sendo 79.200 em famílias com crianças.

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Novas estruturas

“Hoje a gente trabalha com o conceito das diferentes configurações familiares. Cada uma dessas maneiras de ser família pode se constituir ou não em lares harmônicos. Antes pensava-se que uma casa sem a formação completa, com pai e mãe, era um lar desestruturado. Atualmente, essa visão é extremamente preconceituosa. É preciso entender que há pessoas diferentes e que todas podem constituir um lar satisfatório”, afirma a psicóloga Maria Tereza Maldonado, especialista em conflitos de família e autora do livro Casamento, Término e reconstrução (Editora Saraiva, 299 páginas, R$ 42,00).

 De acorfdo com ela, o sentimento da criança em relação à separação depende da maneira como os pais conduzem o processo. “A criança precisa se sentir amada, respeitada pelo pai e pela mãe. Eles precisam entender que por mais que estejam frustrados e amargurados um com o outro não podem transferir isso para a criança, colocando-a no meio do tiroteio”.

A transição nem sempre precisa ser traumática. Acostumada a morar com a mãe, que se separou quando ela tinha 2 anos, Stephanie Baptista, de 13, conta que gosta de viajar e sair com o pai, a mulher dele e os três filhos dela. “Sinto saudades da minha mãe quando viajo com o meu pai, mas é gostoso. A gente vai para a praia e eu considero os filhos da nova mulher dele como meus irmãos também. A gente convive bastante”.

Em sua classe na escola, há outros sete alunos que entendem a sua situação. “Meus pais são amigos, então eles decidem quando a gente vai sair, quem vai me buscar no colégio. Em não tenho dia certo para ver meu pai. A gente se encontra bastante, umas três vezes por semana. Quando ele começou a namorar foi um pouco difícil. A gente achava que não ia dar certo, mas convivemos com a namorada dele”, diz Stella Seerpico, de 13 anos.

Da realidade para a ficção, Luciana é a protagonista do livro Quarto de Menina (Editora Record, 224 páginas, R$ 28), escrito pela psicóloga Lívia Garcia-Roza. Na história, a pré-adolescente que costumava se refugiar no quarto enquanto os pais discutiam na cozinha, é surpreendida pela notícia da separação do casal. A partir daí, ela começa a entender que o pai, que na sua visão era apenas dela, também tem uma vida fora de casa, com outra mulher.

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No gibi

As novas famílias também chegaram aos tradicionais gibis. Atendendo a uma demanda dos próprios leitores, segundo o criador Maurício de Souza, a Turma da Mônica incorporou o tema em um dos personagens. A novidade apareceu no exemplar número 218 (Editora Globo, R$ 3,50) dos quadrinhos e vai continuar presente nos próximos números.

“É uma novidade que me era cobrada por algumas crianças, filhos de pais separados, que queriam se identificar com as histórias. Então pegamos o Xaveco e mostramos que a família dele se separou, como acontece na vida real, todos os dias”, conta Maurício de Souza.

Na primeira história, Xaveco vai passar o fim de semana na casa do pai e tenta explicar para o amigo Dudu a sua nova situação familiar. “O Dudu fica fazendo perguntas que as crianças fazem mesmo, são curiosidades. E vamos mexer com isso sempre para cima, para o alto, uma coisa bem resolvida nos personagens”.

Criação da escritora espanhola Juliet Pomés Leiz, Mamãe Vai Sair Esta Noite (Editora W11, 29 páginas, R$ 27,90) mostra como Simon, um garoto de 4 anos, passa a noite com o tio, depois de a sua mãe explicar que vai sair. O livro é o primeiro de uma série com o personagem, que será editada até o fim do ano no Brasil.

Em uma das passagens da obra, a mãe de Simon o chama para conversar, relembra a tarde agradável que passaram juntos, a festa de aniversário que ele foi na noite anterior e diz: “Agora é a minha vez de ver meus amigos”.

O diálogo e a atenção dispensados à criança têm ajudado bastante na aceitação do fato e na diminuição da procura pelos consultórios, diz o psiquiatra Rubens de Campos Filho, do Instituto Karl Kleist. “A coisa está mais bem resolvida agora, é uma questão de colocação social mais fácil”, afirma.

O psiquiatra faz uma outra observação: “Os filhos de pais separados costumam ter um acompanhamento mais intenso nos fins de semana, quando vão para a casa da mãe ou do pai já existe uma programação para eles. Com esse acompanhamento desde crianças, observamos que quando chegam à adolescência eles apresentam menos problemas”.

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Compartilhamento

Outra mudança está na busca dos pais por uma presença maior na vida dos filhos, na chamada guarda compartilhada. Por esse modelo, as visitas não ficam restritas aos fins de semana e a horários estabelecidos. “Queremos conviver e participar mais da vida dos nossos filhos”, diz Ademar Paulino de Arantes, de 45 anos, pais de dois filhos e membro da Associação de Pais e Mães Separados (Apase).

“Quando comecei a namorar, apresentei meus filhos para a minha namorada e falei que se eles não se entendessem, eu não poderia continuar com ela. Hoje passeamos e viajamos juntos”, diz.

A meta da Apase, no entanto, é mais ambiciosa. “Tentamos mostrar para a sociedade que o mundo muda todo dia e que esse paradigma de que só a mãe sabe cuidar da criança não é uma verdade”.

Disposto a experimentar na prática a idéia, o estudante Thomas Marçal Krotte, de 17 anos, foi morar com o pai. “Morei com a minha mãe até os 13 anos. Depois quis saber como era viver com o meu pai. Queria experimentar isso também. E estou com ele até hoje”, conta.

A experiência de Thomas é só mais um dos arranjos atuais possíveis, uma pequena trajetória entre as tantas já contadas e vividas que podem ajudar crianças e adolescentes a entenderem melhor as suas próprias histórias.

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