Revista ROMANO – abril 2005

EX-MARIDO, PAI PARA SEMPRE

Apesar da inevitável dor da separação, o rompimento pode ser um bom momento para que os pais se aproximem ainda mais dos filhos.

Por Simone Paulino

Fotos Diego Rousseaux e Marcelo Langer

Quando se separou da mulher, o publicitário Álvaro Bellizia, 44 anos, não queria abrir mão da convivência com o filho André, na época com 11 anos. “O casamento estava desgastado, eu sabia que não dava para continuarmos, mas era difícil me imaginar longe dele, sem o convívio diário”, recorda.

O sentimento do publicitário mostra a mudança de atitude do homem moderno em relação aos filhos quando a separação é inevitável. “Antes a preocupação dele era apenas cuidar do patrimônio material. Cabia à mulher a responsabilidade sobre o patrimônio afetivo”, explica o psiquiatra Içami Tiba, autor de diversas obras relacionadas à relação familiar.

Pagar uma pensão para garantir a segurança material dos filhos dava a sensação de dever cumprido. Participar do dia-a-dia das crianças era secundário. Mas esse quadro está mudando.

Depois de conquistar espaço no território da educação dos filhos e perceber o quanto é gratificante a relação que nasce desse processo, os homens agora lutam para manter os laços afetivos após a separação. Querem participar da rotina da criança, levar ou buscar na escola, nas baladas, no médico, prestigiar o futebol ou o balé, comparecer às reuniões escolares e festinhas infantis dos amigos, viajar juntos...

Igualdade é isso

Essa postura mais participativa refletiu no novo Código Civil Brasileiro, cujas mudanças recentes colocam homens e mulheres em pé de igualdade no que se refere à guarda dos filhos. Anteriormente, por princípio, a guarda era dada à mulher, a menos que se comprovasse algum impedimento para exercer seu papel de mãe. A atualização de 2002 deu a ambos o mesmo direito. Prevalece quem tem melhores condições de cuidar da criança. “Nem um pai é melhor pai ou uma mãe é melhor mãe por deter a guarda dos filhos. A guarda não confere privilégios, nem define que um seja superior ao outro”, esclarece Verônica Cezar-Ferreira, advogada, psicóloga e autora do livro “Família, Separação e Mediação – Uma Visão Psicojurídica”.

Na separação, estabelece-se a guarda porque o filho precisa de um domicílio legal e de alguém que se ocupe dele no dia-a-dia. É cada vez mais comum famílias em que a mulher tem mil atribuições e pouco tempo para dedicar aos filhos. “Se entre os dois o homem é quem tem uma atividade mais flexível, com horários menos restritivos, provavelmente será mais benéfico para as crianças que fiquem com o pai”, pondera a psicanalista Belinda Mandelbaum, do Instituto de Psicologia da USP.

Da assimilação dessa nova relação familiar se originou a chamada guarda compartilhada, em que pai e mãe dividem direitos e deveres e assumem o compromisso de compartilhar atribuições e decisões em relação aos filhos. “Mais do que ser justo para o casal, a idéia é ser justo com os filhos, quer têm o direito de conviver com a mãe e o pai sem restrições”, afirma Ademar Paulino Arantes Filho, Diretor da Associação de Pais e Mães Separados (Apase).

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Convivência ideal

Álvaro Bellizia e a ex-mulher Denise Patri Vitiello conseguiram um equilíbrio exemplar na condução da separação e na manutenção de seus papéis de pai e mãe. Apesar de morar com ela, o filho do casal – agora um adolescente de 14 anos – está em contato constante com o pai. “Em um dos dias da semana ele dorme na minha casa porque é rodízio da Denise e sou eu quem o leva para escola”, conta Álvaro Bellizia. Os finais de semana são revezados.

Pai e filho se falam quase todos os dias pelo telefone e têm liberdade para se verem mesmo que não seja dia de visita. “Mais importante que a modalidade de guarda é que pai e mãe tenham maturidade emocional para entender que o “guardião” não é o dono do filho, nem o “visitador” um mero visitante. Ambos têm o poder familiar, o direito e o dever de educar juntos”, concluiu Verônica Cezar-Ferreira.

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Filho não é moeda de troca

O homem tem participado mais espontaneamente de todos os processos para diminuir o sofrimento dos filhos num momento de crise. É isso que pensa a psicóloga Sylvia van Enck Meira, da Associação Paulista de Terapia Familiar (APTF). “É como se o homem ganhasse cada vez mais consciência de que não pode ser substituído pela mãe e dessa consciência brotasse a percepção de que, mesmo depois de desfeito o casamento, precisam ser parceiros naquilo que os une para toda a vida”, diz Sylvia.

Isso significa passar por cima dos próprios sentimentos para preservar a integridade emocional e psicológica dos filhos. Por mais bem-resolvida que seja uma separação, ela contém elementos de mágoa, ressentimento, frustração, que precisam ser tratados sem que se jogue os filhos no olho do furação. Isso pode parecer óbvio, mas é muito difícil”.Um dos pontos fundamentais para que as crianças sofram menos é não obrigá-las a tomarem partido e, sobretudo, não cair na armadilha de denegrir a imagem do pai ou da mãe perante eles”, orienta Belinda Mandelbaum. É nessa fase entre a infância e a adolescência que se constrói a imagem dos pais. “Se essa imagem for deturpada nesse momento da vida, poderá demandar anos de análise para recompor essa figura depois, com o agravo da presença de um forte sentimento de culpa”, observa.

Segundo Ademar Paulino Arantes Filho, da Apase, esse tipo de problema, chamado Síndrome da Alienação Parental, ocorre principalmente quando um dos cônjuges é dependente financeiramente do outro, em geral a mulher. “Nesses casos a criança vira uma moeda de troca, daí a tendência de que um denigra o outro para poder manter sua fonte de renda. Quando a mulher tem independência financeira, ela tende a lutar pela guarda compartilhada, pois seu foco de preocupação é o bem-estar emocional do filho”.

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Preservando as imagens

Sidnei Negrão, 46, e a ex-mulher Sandra Alouche souberam bem como preservar o filho Vinícius de qualquer tipo de disputa. Separados há pouco mais de um ano, o casal colocou a felicidade do menino de cinco anos em primeiro lugar na nova dinâmica familiar. Além, de dividirem as despesas, eles mantém uma relação amigável e respeitosa. Na casa em que mora com a mãe, os porta-retratos, com fotos do pai do garoto e dos três juntos, têm lugar de destaque na decoração da sala, uma atitude simples que preserva a imagem do pai (ou da mãe) que não convive mais naquele ambiente.

Como já participava bastante de tudo o que se relacionava à vida do filho, Negrão não teve dificuldade para readequar seus horários de dedicação exclusiva ao menino. “A diferença é que agora ficou mais bem definido: às segundas e quartas eu levo e busco na escola, um final de semana ele fica comigo, no outro, com a mãe. Se as festinhas dos amigos e comemorações escolares caem em dias em que ele está comigo, sou eu quem o acompanha, isso ajuda a preservar a amizade que a gente já tinha com os pais dos amigos dele”.

Apesar desses encontros de agendas. Negrão diz que nada substitui o convívio diário. “Sinto falta de ser acordado por ele. Quase todo dia, ele despertava e ia direto do meu lado da cama, me chamar para brincar na sala. Eu levantava e ficávamos lá até a Sandra acordar. Essa presença tão boa, todo dia, eu não tenho mais e sinto muita falta”.

Esse tipo de sentimento, comum entre os pais separados, não deve ser reprimido, mesmo diante dos filhos. “Não é saudável fazer drama, mas ao assumir diante do filho que também sofre, fica triste e sente falta dessas pequenas coisas, o pai está legitimando um sentimento que também é da criança, o que dá um certo conforto para ambos e tende a uni-los ainda mais”, sugere a psicóloga Sylvia van Enck Meira. Segundo ela, “muitas vezes o pai se sente excluído porque geralmente é ele quem sai de casa e com isso acaba se auto-excluindo. É importante ter coragem de enfrentar o desconforto inicial que essa nova condição causa e acreditar que, às vezes, a separação mais aproxima do que distancia pais e filhos”.

É para namorar ou casar?

Depois de conduzirem com maturidade e afeto a separação, os pais podem enfrentar um novo momento crítico ao terem que apresentar aos filhos uma nova namorada. Nesse momento é preciso bom senso para que os filhos não fiquem inseguros e assimilem a nova relação dos pais como mais uma perda. “Em primeiro lugar não se recomenda que qualquer namorico seja levado ao conhecimento deles. O filho só deve ser informado se for uma relação séria, com perspectivas de união estável ou casamento”, diz Verônica Cezar-Ferreira.

Nesses casos, é bom que os filhos sejam preparados, já que a nova relação afetará suas vidas. As explicações e conversas devem ser compatíveis com a idade das crianças, mas é bom lembrar que, em qualquer idade, elas sempre vivenciam a fantasia de reconciliação dos pais e, portanto tendem a criar uma resistência natural.

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