Diário do Pará - 29 de janeiro de 2005

 

Guarda de menina vira drama

Adolescente prefere ficar com o pai a voltar para os EUA

 

 

Um drama familiar de grandes proporções virou do avesso a vida do médico Armando Morelli Acatauassu, 43 anos, e de sua filha Betsy Lee McGlohn, 13 anos.

Ele vive a situação inusitada de se transformar, do dia para a noite, de médico respeitado no Pará, que nunca teve qualquer problema com a polícia, em foragido da Justiça. A confusão toda foi criada porque Armando decidiu arriscar tudo em respeito à decisão de sua filha, que optou por permanecer com ele no Brasil (e no Pará) ao invés de voltar a morar com a mãe, Cathy Lee Barata McGlohn, nos Estados Unidos.

A história do casal começou em 1991 quando Armando casou com Cathy, que é paraense mas tem dupla nacionalidade por ter pai americano. Ficaram juntos até 2000, quando ocorreu a separação e se iniciou a briga pela guarda da única filha. Enquanto o processo corria na Justiça, foi firmado um acordo pelo qual a menor passaria a viver com a mãe, passando fins de semana alternados com o pai.

Acontece que, no dia 17 de julho de 2001, apesar de um documento assinado pela desembargadora Isabel Benone impedindo que a menor saísse de território paraense, Armando conta que Cathy forçou Betsy a escrever uma carta onde afirmava que havia sido proibida (pelo pai) de ver a avó, que estaria doente nos Estados Unidos. “Na ocasião, um juiz que não era sequer da Vara de Família, foi subornado (isso está provado no processo) e autorizou que minha filha viajasse. Na verdade, ela fugiu com minha filha para os Estados Unidos”, denuncia.
De julho de 2001 a fevereiro de 2002, Armando não sabia do paradeiro de sua filha - que estava na Flórida. “Em seguida, conversei com a mãe dela para que a menina passasse pelo menos as férias comigo. Em 2003, fechamos um acordo pelo qual ela passaria as férias de julho comigo e um final de ano sim, outro não. E passei a pagar uma pensão mensal a ela, por isso, no valor de US$ 500,00”, recorda.

O acordo foi cumprido no ano de 2003 e Betsy voltou ao Brasil para ficar com o pai, novamente, em julho de 2004. “Toda vez em que ia voltar para os Estados Unidos minha filha ia chorando daqui, até com raiva da gente. Era como se ela dissesse: ‘Pai, me segura aqui’. Só que ela nunca falava nada. E eu não podia fazer nada porque havia um acordo judicial”, conta Armando. Depois disso, Betsy passou um ano sem vir ao Brasil.

 

Justiça tirou guarda do pai

 

Nas férias de julho de 2005, Betsy abriu o jogo e disse que não queria mais retornar aos EUA para morar com a mãe. “Pode até parecer mentira, mas fiz tudo para que voltasse, pois estudava e tinha uma vida lá. Foi quando ela me contou que queria ficar comigo e não era feliz com a mãe, apesar de amá-la muito”, diz Armando Morelli.

Em seguida, ele procurou um advogado e iniciou o processo para ficar com a guarda da filha, inclusive com avaliação psicológica feita pelos profissionais do Juizado da Infância e Adolescência, onde a menina novamente manifestou a vontade de permanecer no Brasil ao lado do pai.

Em agosto de 2005, a Cathy chegou ao Brasil e dias depois foi visitar a filha. Betsy, segundo Armando, entrou em pânico. “A Cathy começou a chorar e a gritar, fazendo um escândalo no prédio. Os encontros entre mãe e filha continuaram, mas a pressão psicológica em cima da criança era enorme”, relembra.

Ainda em agosto do ano passado, Cathy esteve na casa do médico enquanto ele estava operando num hospital. Chegou acompanhada de dois oficiais de Justiça, querendo levar a criança de qualquer maneira. “Ela tinha uma ordem para passar o final de semana com a Betsy mas exigia que ela levasse o passaporte dela. Isso não existe. Ela e a filha são cidadãs americanas e podem embarcar a qualquer hora sem a necessidade de visto. Era isso que ela queria. Levar minha filha daqui, mas não conseguiu”.

Depois desse episódio, Armando decidiu sair de Belém com a filha até setembro, procurando preservar a menina de qualquer pressão materna. A Justiça manteve a guarda com Armando e Cathy retornou para os Estados Unidos em outubro, tendo o direito de ver a filha sempre que quisesse. Em janeiro deste ano, após o recesso do Judiciário, ela voltou ao Brasil.

“Para nossa surpresa, a desembargadora Isabel Benone reverteu inteiramente o processo, me colocando como fugitivo da polícia, uma coisa inconcebível”, protesta. Ele lembra que, em 2001, quando a mãe raptou Betsy pela primeira vez, seis desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado concordaram que a guarda teria que ser do pai. “Ainda assim passei dois anos sem ver a minha filha e a Justiça não fez nada, mesmo com a guarda sendo minha”, critica.

O médico afirma que, em nenhum momento, pressionou a filha para que ficasse em Belém. “Disse à mãe que sempre acatei a vontade da menina. Ela passou cinco anos nos Estados Unidos e respeitei isso. Agora que ela manifestou a vontade de ficar aqui comigo, vou lutar por isso até o fim. A hora em que ela quiser voltar para o exterior, está liberada. O problema é que ela não quer”.

 

Menina diz que prefere ficar no Brasil

 

Há mais de uma semana, Armando Morelli resolveu levar sua filha para um lugar que considera seguro. Na sexta-feira, 27, a reportagem do DIÁRIO foi ao seu encontro para que ele pudesse tornar público seu drama particular. Abatido, o médico diz que continuará escondido até que a decisão judicial que o considera foragido seja revertida.

“Nem que eu vá preso minha filha sairá do meu lado. Não deixarei que ela fique infeliz, sofrendo nos Estados Unidos. A ironia disso tudo é que acabo de saber que me tornei um criminoso apenas por defender um direito constitucional da minha filha”, lamenta.

Por estar viajando com a filha, Armando não foi sequer citado da decisão da Justiça paraense. “Acredito que esteja ocorrendo uma pressão muito grande de setores poderosos em cima dessa decisão. A sociedade precisa saber do meu drama, pois não tenho a quem recorrer”, diz o pai.

Como médico, ele chega a fazer 300 cirurgias por mês, mas sua vida virou um inferno desde que a batalha judicial por Betsy teve início. “Sou um cara pacífico, que salva vidas e me vejo impedido de realizar meu trabalho. Sem falar que minha filha precisa voltar a estudar nos próximos dias e não sei como vou fazer. Estou isolado aqui e não sei nem como está a minha família. Soube que meu pai está passando muito mal em Belém em função de tudo isso. Estou desestruturado”, desabafa.

Segundo as informações do ex-marido, a mãe de Betsy é uma americana típica, que trabalha de segunda a sábado. “Como ela namora hoje um maratonista, aos finais de semana ela deixa a menina sozinha em casa e vai correr. Betsy ficava lá completamente só, tendo inclusive que cozinhar e arrumar o quarto dela”, diz Armando.

Além disso, a menina possui problemas sérios na coluna. Exames confirmaram a existência de cifose e escoliose graves. “Pedi à mãe para fazer o tratamento, mas nada foi providenciado. Ela também tinha problemas nos dentes. Em julho do ano passado, colocamos o aparelho dental que ficou um ano nos Estados Unidos sem qualquer manutenção. Quando ela voltou ao Brasil, o aparelho estava todo quebrado. São tratamentos caros que a mãe não tem condições de arcar, enquanto que eu posso, por ser médico e possuir muitos contatos”, argumenta.

Apesar de ter vivido situações inesperadas e até turbulentas para uma pré-adolescente, Betsy é alegre e extrovertida. Abraçada ao pai, ela diz que não quer viver com a mãe porque fica “muito solitária lá com ela”. De acordo com ela, a mãe “vive sempre correndo e em maratonas aos finais de semana e eu não consigo, não gosto de correr”.

Diz ainda que, apesar de ter mãe, avó e tio nos Estados Unidos, prefere ficar no Brasil “porque aqui eu tenho uma família de verdade e aqui não sou solitária. Já falei isso muitas vezes para minha mãe, mas ela não acredita. Fico aqui porque eu quero. Aqui sou mais feliz”, afirma a menina.

A desembargadora Isabel Benone, procurada pela reportagem do DIÁRIO, na sexta-feira à tarde, preferiu não se manifestar. Disse que, na condição de magistrada, não pode ser posicionar. Já a mãe de Betsy, Cathy Lee McGlohn, procurada por telefone, não foi localizada para falar sobre o caso.

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