Correio da Manhã - Portugal

Há duas semanas, Serafim Bastos teve um mau pressentimento. Saiu de casa a correr e entrou pela escola à procura da filha. Com a aflição, esqueceu-se que a ‘pequenina’ já não é dele. “Quase todos os dias dou por mim no caminho da escola. É mais forte do que eu”, desabafa.

Serafim Bastos ficou sem a pequena Ana Catarina, de quem só lhe restam as bonecas. Está destroçado

 

A 11 de Janeiro, o Tribunal do Seixal retirou-lhe a guarda de Ana Catarina e entregou-la à mãe, que a abandonara com 18 meses. Serafim, pescador na Caparica, jamais irá esquecer a despedida na PSP de Almada. A filha lançou-lhe os braços à volta do pescoço e perguntou-lhe: "Eu volto e tu esperas por mim, não esperas?". Serafim não tem feito outra coisa senão esperar. "Mal come e passa o tempo a chorar", dizem os vizinhos.

Ana Catarina foi para Lisboa. "Sinto uma revolta muito grande. Eu fui pai e mãe durante muitos anos. Sempre estive com ela todos os dias. Agora só me deixam vê-la duas vezes por mês", conta indignado. O coração de Serafim apertou-se ainda mais quando notou que Ana Catarina já não era a mesma menina alegre. “Ela está triste. Toda a gente vê isso.”

Na modesta casa de Serafim há fotos de Ana Catarina por todo o lado. O quarto continua como ela o deixou. As bonecas arrumadas nas prateleiras e os vestidos no guarda-roupa. "Ela tem tudo o que precisa aqui", diz Serafim, que não percebeu porque a levaram. "Só pode ser por eu ser pobre, mas com a mãe ela não vive em melhores condições". E pergunta: “Será preciso fazer alguma loucura?”

Serafim é um homem despedaçado, sem vontade para nada. As redes estão em terra. O mar está lá. E até este lhe parece mais triste.

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