DIA DAS CRIANÇAS: VOCÊ TEM TEMPO PARA AS SUAS ? 

LIVRE-SE DA CULPA

Por Rosely Jorge

 

Um grande inimigo de pais que trabalham e estudam é a culpa que sentem pela falta de tempo junto aos filhos. Na vida contemporânea, normalmente, pai e mãe deixam suas casas em busca de satisfazer aos anseios financeiros, algumas vezes, aliados a busca de realização pessoal e profissional. Delegam as atividades relacionadas à criação de seus filhos, de dois modos: adotam uma solução doméstica, criando uma infra-estrutura conforme os recursos disponíveis e até mesmo contam com avós ou escolhem uma instituição (berçários, creches, escolas).Por vezes, as duas opções são adotadas, fazendo-se um “mix” entre elas.

 

Uma breve visão histórica da família

 

Antigamente, bastava que um homem fosse um bom provedor para a família, para que o mundo o apontasse como um bom marido e pai modelo. A educação enquanto dever moral e formação do caráter era, normalmente, realizada pela mulher, pelo tempo que dispunha.

 

Os dilemas da contemporaneidade

 

Hoje é fato que a dinâmica familiar mudou. A falta de convívio familiar no mundo moderno faz com que a família raramente exerça seu papel fundamental de formar seus filhos no mundo privado - experiências vividas no lar entre pais e filhos, onde as histórias e estórias familiares, valores, crenças, tradições e costumes são transmitidos, de geração em geração, formando uma visão de mundo e valores morais.  Forja-se assim um caráter para o enfrentamento da vida, adquirido pela dimensão do vivido e da experiência na relação pais-filhos.  Para além da provisão material, como alimento, roupa, abrigo e educação escolar: é a camaradagem e companheirismo provenientes dos conselhos de bons pais, que são presentes no acontecer singular e único das diferentes fases do processo maturacional de  cada filho. É necessária a presença real dos pais na vida dos filhos. Esta presença envolve não só a esfera física, mas principalmente a afetiva.

 

O papel da escola e a rivalidade entre escola e pais

 

A escola, por sua vez, constata a carência existente da criança em formação de um lado e este lugar vazio e desocupado que pertence à família, de outro. Muitas vezes, toma iniciativas na direção do preenchimento deste mundo encontrado vazio que pertence ao privado de cada família e acaba por gerar, em alguns casos, situação de conflitos entre educadores, pais e alunos. Cabe a escola desenvolver e formar cidadãos, promovendo a aquisição de diferentes conhecimentos e apresentar as diversidades existentes, portanto, é papel da escola atuar na esfera pública e não privada. A escola pode quando muito, alertar os pais sobre aspectos observados nos filhos, provenientes de alguma carência na esfera familiar, podendo com isto, auxiliá-los na busca de soluções plausíveis em prol do desenvolvimento dos filhos.

 

Onde começa esta crise moral que enfrentamos no Brasil ?

 

Os problemas de amor e confiança entre pais e filhos são os pilares sob os quais se ergue a nossa vida nacional que se eleva ou se degrada, proporcional ao êxito ou fracasso das relações familiares. Nenhum progresso econômico, cultural , educacional ou artístico, alcançado às custas do prejuízo da família nos exime das conseqüências de nossas próprias negligências, restando-nos as seguintes questões: 

- de que modo estamos formando pessoas em nosso país?

- Sob a base de quais valores?  O que de fato, valorizamos?

- Quais os meios “legitimados” para a realização?

 

Resolva a culpa,  rompa o círculo vicioso  e crie relacionamento autêntico

 

Pais que criam seus filhos, dominados por este sentimento de culpa decorrente da ausência,  faz com que muitos queiram compensar esta falha familiar, dando aos filhos tudo aquilo que o dinheiro pode comprar, mesmo estando, as vezes,  até acima de suas reais possibilidades financeiras. Soma-se a esta tendência a incapacidade de lidar com limites e dizer “não”, já que se sente devedor, é mais fácil o caminho do “sim”. A necessidade não é tanto do filho, mas dos pais em espiarem a própria culpa. Pais: não se enganem.  Os objetos materiais, independente de seu valor, não substituem tudo o que falta na relação bem construída com seus filhos.

 

Convite aos pais cidadãos

 

Conquistem a confiança de seus filhos. Saibam que ser digno de confiança junto aos filhos, não é tarefa simples e nem fácil. A confiança mútua não cresce numa noite e nem em um cenário de natal ou de festa, nem vem com o aceno de belas promessas de viagens ou aquisições materiais atrativas. A confiança precisa ser plantada, regada e cultivada. Porém, uma vez arraigada na mente e no coração de seus filhos, florescerá perenemente com eles. Esta é a confiança necessária para construirmos famílias, bairros, cidades e nações éticas e vencedoras.

 

Sedimente a amizade e a confiança na relação com seus filhos

 

Porém, pais que não tem tempo devem estar se perguntando: Como conseguirei alcançar tal confiança, tal espírito de intimidade? A inseparável companheira da confiança é a amizade.  Priorizem o desenvolvimento desta amizade com seus filhos, criem interesses comuns. Demonstrem interesse por aquilo que está ao nível intelectual e emocional de seus filhos – seus jogos. Joguem com eles. É no brincar que eles se exprimem e aprendem as lições fundamentais da existência social. Abra os canais para a verdadeira expressão entre ambos, diminua as distâncias usando de todos os recursos que tem sob seu domínio e saiba que a distância mais curta entre duas pessoas é um olhar, um sorriso, um toque. Abra os espaços vitais dentro do seu coração e de sua vida. Conheça seus filhos, e também, não menos importante: se faça conhecido(a) por eles. Este é o maior presente que uma criança pode receber de seus pais: a verdadeira e sólida amizade no transcurso da sua vida.

  Rosely Jorge é psicóloga clínica e organizacional em São Paulo
(11) 3755.0444
 e-mail
rosely.jorge@axisconsultoria.com.br
 

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