Folha dos Lagos – Cabo Frio – 13 agosto 2006

Um pai contra a distância

Thiago Freitas

 

O que é ser pai? A frase constitui apenas uma pergunta, cujas respostas podem ser várias. No caso do servidor público federal, Humberto Aveiro, uma das respostas seria: de 15 em 15 dias, viajar de avião de Brasília ao Rio, pegar um ônibus até Cabo Frio, arcar com despesas de hotel, tudo isso para se fazer presente na vida de dois importantes tesouros, as filhas Camilla, de 8 anos, e Helena, de 5. Esse é só mais um retrato do que é ser um pai separado da esposa, que na maioria das vezes tem a preferência da guarda dos filhos.

O que eu mais me esforço com essa situação é para não chegar um dia em que, ao encontrar minha filhas, pareça um estranho para elas. Por isso tento estar presente sempre, apesar das dificuldades financeiras para me deslocar de 15 em 15 dias de Brasília para Cabo Frio, representando um gasto que poderia estar sendo investido no futuro delas – desabafa Humberto, que está desde quinta –feira na cidade por conta do Dia dos Pais.

Brincando com as filhas no parque da Praça da Bandeira, no bairro Passagem, Humberto abriu o livro de sua vida para tocar em um assunto que, neste Dia dos Pais, deve ser lembrado por todos que não têm a oportunidade de participar diariamente da criação dos filhos.

Para Humberto, as leis que constituem o Código Civil Brasileiro ainda contém aspectos preconceituosos com relação à participação dos pais na educação dos filhos.

- Nesse sentido nossa Justiça se mostra preconceituosa ou machista, não sei bem ao certo. Porque para o universo judiciário, os pais, ou seja, os homens, são menos capazes, por serem menos sensíveis do que as mulheres, para criar seus filhos sozinhos. Desde o início que eu sempre dei banho, troquei fralda, dei mamadeira e acordei no meio da noite  quando elas perdiam o sono ou quando ficavam doentes. Por que um pai não possui os mesmos direitos que as mães, se nem sempre elas estão aptas a educar os filhos^? – questiona ele.

A parte difícil da história deste pai de 45 anos começou há três anos, quando se separou da esposa. Após o divórcio, ficou estabelecido por um juiz que Humberto teria direito a guarda compartilhada das filhas, mas pouco depois disso, a esposa se mudou de Brasília, onde morava, para Cabo Frio e desde então a rotina de Humberto tem sido a mesma.

- Em 90 % dos casos de separação, os pais passam por dificuldades que refletem na relação deles com os filhos. No meu caso, se eu quiser vê-las, preciso fazer essa maratona toda, pois do contrário não teria condições de participar na vida delas – frisa Humberto.

Mesmo falando com o pai todos os dias pelo telefone, a pequena Camilla, de 8 anos, não esconde a saudade que sente dele.

- Tem vezes que ele não pode vir, aí tenho que esperar a outra vez dele ver a gente para poder brincar com ele – conta ela, montada nas costas do pai.

Perguntado que presente gostaria de ganhar, Humberto termina dizendo que se pudesse pedir um presente de Dia dos Pais ele pediria:

- Mudanças. Gostaria que a sociedade reconhecesse que o papel dos pais se transformou nos últimos anos. Os homens estão cada vez mais familiares e participativos na vida dos filhos. Isso deve ser incentivado, e não barrado por privilégios dados às mães. Não que as mães não sejam importantes. São, e muito. Mas não são mais, ou menos que os pais – finaliza.

 

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