O Estado de São Paulo - Edição de 10 de agosto de 2008

Papel bem definido

Aguarda compartilhada entre o casal, que virou lei este ano, é uma realidade feliz para inúmeros pais e filhos.

 

Fabiana Caso

Reportagem local

WEBCAM - Analdino, Presidente da APASE - Associação de Pais e Mães Separados, fala com a filha constantemente pelo MSN

 

Para a psicóloga Tâmara Brockhausen, especializada em psicologia jurídica e mediação, a Guarda Compartilhada faz parte de uma mudança de paradigmas na sociedade. "Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, o homem passou a ocupar um novo lugar como pai, ficou mais ativo." Quanto à questão de ter duas casas, comenta que pode ser enriquecedor para os filhos. "A criança tem uma capacidade incrível de adaptação. Pode conviver com as diferenças sem se sentir dividida ou em conflitos."

A lei, sancionada em junho, foi uma reivindicação de muitos pais

TÃO LONGE, TÃO PERTO

O editor de livros Analdino Rodrigues Paulino Neto, de 57 anos, atual presidente da APASE - Associação de Pais e Mães Separados www.apase.org.br  também é da opinião de que a Guarda Compartilhada é uma boa solução, em qualquer caso. A APASE, que reúne 10 mil participantes, lutou durante oito anos pela aprovação dessa lei. "Hoje há 10 milhões de filhos de pais separados em litígio", constata. "É justo que esses pais fiquem sem conviver com os filhos por causa disso? A Guarda Compartilhada é possível em toda situação, mesmo que os pais morem em cidades diferentes."

É exatamente esse o seu caso. Analdino nasceu em Goiás, mas mora em São Paulo. Quando sua filha Amanda nasceu, morava em Goiás. Naquela época, era dono de uma loja e contava com horários flexíveis. Por isso, era quem dava banho e comida para Amanda. Separou-se há oito anos, e o processo litigioso durou seis anos e meio.

No início, lhe foram concedidas as visitas quinzenais de fins de semana. Até então, morava em Porto Alegre, por causa do trabalho, e viajava para encontrar com a filha. No entanto, muitas vezes era impedido de vê-la. "Fiquei dois anos sem ver a Amanda", lamenta. "Era pai e mãe, mas fui privado desse convívio. Era como ter uma ferida em carne viva. Chorávamos juntos."

Como Amanda sempre insistiu para vê-lo, a mãe acabou cedendo. Para a felicidade de Analdino, em dezembro de 2006, os dois assinaram um acordo de Guarda Compartilhada. A filha, hoje com 10 anos, quer ficar em Goiânia, mas diz que ela deve permanecer onde se sinta feliz. E planeja se mudar para lá quando possível. "Por enquanto, fico por dentro do seu cotidiano pelo MSN e telefone. A Guarda Compartilhada é possível até quando se mora em continentes diferentes, por causa da tecnologia."

Quando vai a Goiás, pelo menos a cada dois meses, passa de 10 a 15 dias direto com a filha. E participa de todas as decisões sobre a vida da pequena. Foi quem escolheu a escola onde estuda, decidiu que faria aulas de inglês e que teria acompanhamento psicológico. "Hoje ela está ótima: tem boas notas na escola, é sociável. Seus olhinhos voltaram a brilhar." A Guarda Compartilhada melhorou até seu relacionamento com a ex-mulher. "Foi minha filha que ponderou que eu deveria ser amigo da mãe dela. Hoje sorrimos e até nos abraçamos."

PROLE UNIDA

        “Quando você se separa, não está se separando dos filhos." Diz o empresário Alexander Nicolas Dannias, de 39 anos. Depois de ter lido muito sobre Guarda Compartilhada, solicitou o aumento do convívio, o que foi acontecendo progressivamente. "Em alguns países, esse sistema é o padrão. É melhor, pois os pais dividem as responsabilidades, e possibilita que a mãe possa desenvolver sua carreira, ter outros relacionamentos", comenta. "Numa separação, devemos fazer de tudo para que o impacto seja o menor possível para as crianças."

Para ficar mais perto dos rebentos, montou um escritório em casa, de onde pode resolver assuntos de trabalho nos dias em que estão juntos. Com tantos filhos, seu desafio é conciliar os papéis de pai, marido, homem. Há fins de semana que "pula" de festinha em festinha. "É enriquecedor ver que você está contribuindo para formar novos cidadãos, e aprendendo com eles também."