APASE - Associação de Pais e Mães Separados
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Revista Crescer, Edição de março de 2003

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 PAI PRA TODA OBRA

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Como tantos outros homens, o empresário João Tiago Carrera separou-se da mulher. Só que lutou para ficar mais do que os fins de semana com os filhos. E hoje, cuida dos quatro com a maior habilidade. É um pai sozinho, mas feliz.

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 “Esses são meus filhos (João aponta para uma foto que serve de papel de parede do computador, em sua loja). Lindos, não? O caçula, Leonardo, é uma simpatia. A Juliana, essa beleza de menina, é muito persistente. Consegue tudo o que quer. Já o Fernando é mais na dele, certinho e honesto. O grandão é o Fábio, filho do primeiro casamento da Luciana, minha ex-mulher. Quando nos casamos, ele tinha 3 anos. Eu o considero meu filho tanto quando os outros. Sou um pai sozinho” Sozinho porque me separei da mãe deles. E também porque fico sozinho com eles duas semanas por mês. O destino quis que as coisas ocorressem dessa maneira. Fui dando um jeitinho aqui, outro ali e, hoje, a nossa rotina está perfeita. Sou um homem completo. Não sei o que seria de mim sem as crianças.

Sempre quis ser pai. No primeiro casamento, não tive filhos. O segundo já veio com um no “pacote”  e, logo, nasceram os outros. Aos poucos, as visitas do pai biológico do Fábio, que se casou novamente e teve outro filho, diminuíram. E a nossa aproximação foi aumentando. Depois de 11 anos de casamento, resolvemos nos separar. O divórcio foi amigável, mas fui eu que sai de casa, por isso, tive medo. Não queria que meus filhos pensassem que iria abandoná-los. Acho que o maior receio era de que surgisse outro “pai” no meu lugar, assim como ocorreu com o Fábio. Como eu e a Luciana éramos sócios, a empresa também foi desmembrada.

De repente, aos 44 anos, me senti velho, sozinho, com dificuldades profissionais e sem meus filhos. Acordava no meio da noite e estranhava o silêncio. Casa com criança é sempre barulhenta, até de noite Tem aquele que ronca, o que levanta para ir ao banheiro e o que pede para dormir na cama da gente. Entrei em depressão. Voltei a morar no nosso primeiro apartamento e meus filhos passavam os fins de semana comigo.  Logo no primeiro ano de separação, para minha sorte, a casa da mãe teve de ser reformada. Então, as crianças vieram ficar comigo por dois meses. Eles me trouxeram de volta à vida. Arrumei uma empregada para me ajudar e fui me ajeitando nessa vida de pai sozinho. O Leonardo tinha só três anos. Ele me esperava todas as noites para jantar, fazia questão que o pai lhe desse de comer na boca.

Após a reforma, eles voltaram para a casa da mãe. Mas eu tinha um bom argumento para convencê-la a deixar meus filhos passarem mais tempo comigo: soube cuidar deles sozinho. Desde então, há quatro anos, eles se alternam em duas casas. Passam uma semana comigo e outra com a mãe. Aos poucos adaptei meu apartamento. Eles têm uniforme, roupas, jogos e brinquedos nas duas casas. A única coisa que levam e trazem é a mochila. Não é tão difícil porque moramos no mesmo bairro.  Na semana que estão comigo, sou pai em tempo integral. Jantamos juntos, olho a agenda escolar dos menores, cobro a lição e vemos TV. A casa vive cheia de crianças, Tem videogame e roda de violão. Já cheguei a pedir dez pizzas para a garotada. Não me importo com a bagunça. Minha mãe não deixava eu receber amigos em casa. Não quero que seja assim com eles.

A maior emoção da minha vida foi ver a Juilana pela primeira vez. Foi no hospital, quando eles a trouxeram naquele carrinho de vidro. Pensei que fosse morrer. Tenho muitas lembranças dos quatro. Não há  uma passagem na vida deles que eu não tenha participado. A primeira menstruação da Juliana, por exemplo, ocorreu quando ela estava comigo, em nossa casa de campo. Corri para a vizinha e pedi um absorvente emprestado. Quando o Fábio levou um fora de uma namorada, veio desabafar comigo.  Não era a “minha” semana. Fiquei comovido com a consideração.

Já acordei de madrugada com o caçula ardendo de febre e corri para o médico às pressas, sozinho. Acho importante participar, já fazia isso antes da separação. Talvez, se ainda estivesse casado, desse menor valor a tudo isso. Quem sabe até delegasse mais tarefas à minha ex-mulher. Mas, no meu caso, conquistei o direito de conviver com meus filhos. Até hoje nunca apresentei uma namorada aos meus filhos. Eles até cobram. Mas já casei duas vezes. Agora vou esperar o coração apitar. Aí, sim, meus filhos vão conhecê-la.

A Mãe deles sabe que sou um pai competente. Somos maduros para entender que uma criança precisa de pai e de mãe, nenhum substitui o outro. Só divergimos em relação às paqueras da Juliana. Sou muito ciumento. Tivemos poucos problemas com as finanças, pois ela é independente. Não pago pensão alimentícia, mas dividimos os gastos fixos das crianças: escola, plano de saúde, transporte escolar, ortodontista., etc. Dizem que sou um bom pai – e eu concordo. No clube, no camping e até no bar da esquina, sou conhecido por ser um pai sozinho. Não somos uma família perfeita, há brigas como nas outras. Mas meus filhos me amam e me respeitam. Sou pai e amigo. Não queria virar mais um daqueles pais separados que encontro nos shoppings aos domingos, passeando com as crianças como fantoches, porque não conhecem os próprios filhos. Eu, que fui abandonado pelo meu pai quando tinha 1 ano, sempre soube a falta que isso faz na vida de alguém”.

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