APASE - Associação de Pais e Mães Separados
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(Colaboração de Orli S. Oliveira Junior - São Paulo)

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Transcrição, na íntegra, de matéria publicada na Revista Saúde, edição de setembro/2000

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NÃO BASTA SER PAI

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Pesquisadores americanos e brasileiros salientam a importância da presença paterna no desenvolvimento dos filhos
Por Evanildo da Silveira

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Depois de uma exaustiva jornada de trabalho, ele se anima com a perspectiva de brincar com os filhos, ajudá-los a fazer a lição da escola e botá-los para dormir, lendo um gostoso conto infantil. Esse modelo de pai participativo é cada vez mais valorizado pelos cientistas. Estudos recentes feitos nos Estados Unidos e no Brasil mostram que a presença paterna é fundamental para o desenvolvimento das crianças.
          Segundo um trabalho da Universidade de Maryland, a meninada que conta com o envolvimento dos papais no dia-a-dia tem maior auto-estima, aprende melhor e apresenta menos sinais de depressão.
          Por aqui, a psicóloga Vera Resende, da Universidade Estadual Paulista, chegou a conclusões semelhantes após acompanhar, por três anos, crianças com problemas emocionais. "Em 80% dos casos, elas não estão doentes. Só expressam dificuldades nas relações com a família, sobretudo em relação à ausência paterna", avalia Vera.
          A cumplicidade paterna é fundamental.
          Os pesquisadores de Maryland entrevistaram 855 crianças. As que se saíram melhor em testes de aprendizagem foram justamente aquelas que contavam com maior participação paterna. Até aí não há novidade — não é preciso uma pesquisa para apontar que pai é coisa séria. A surpresa veio do fato de todas viverem em ambientes de instabilidade emocional. Portanto, elas não viviam em clima de lar, doce lar. Entre tantos conflitos, a ausência do pai teve peso enorme.
          Assim, os cientistas concluíram que faz a maior diferença a presença do pai ou de uma figura paterna — alguém que não é o pai biológico mas que seja encarado como tal. Segundo eles, o contato pode até ser esporádico, desde que haja muito envolvimento afetivo.
         Já a psicóloga Vera Resende, da Unesp de Bauru, no interior paulista, acompanhou 76 pequenos. Eles tinham distúrbios como hiperatividade, insegurança, dificuldades de relacionamento e depressão. E veja só: na maioria das vezes, a raiz desses transtornos estava na omissão paterna. "Isso terá impacto na vida adulta deles", prevê. "A forma como se manifestará é que vai depender de como cada um enfrenta esse vazio."
         É preciso um modelo masculino por perto.
         Que fique claro: embora os dois estudos enalteçam a figura paterna, isso não significa que os pequenos criados somente pela mãe estejam necessariamente condenados a transtornos emocionais. A própria pesquisa da Universidade de Maryland reconhece que crescer numa família com essas características, cada vez mais comuns nas sociedades modernas, pode ser bem saudável.
         Isso acontece quando, em primeiro lugar, a mãe têm plena consciência de que cabe a ela toda a responsabilidade pela formação infantil — sem estar se queixando ou salientando por meio de atitudes a ausência do parceiro.
          Além disso, a criança precisa de um modelo masculino forte por perto — assim como de um feminino, que no caso é o da mãe. "Todos nós temos esses dois lados. Na infância, precisamos de modelos de cada um deles para nos ajustar", sustenta a psicóloga e terapeuta familiar Maria Rita D'Ângelo Seixas, da Universidade Federal de São Paulo. Segundo ela, nesse papel a figura paterna pode ser substituída por outra — um avô, um tio ou aquele velho amigo, não importa. O que a criança precisa é de um homem que lhe dê carinho, amor e muita atenção.
          Pais ativos, filhos equilibrados.
         Todo mundo já ouviu falar que nos primeiros meses de vida a criança precisa exclusivamente dos cuidados da mãe. Nada mais falso. De acordo com a psicóloga e terapeuta familiar Maria Rita D´Ângelo Seixas, da Unifesp, a criança necessita da presença paterna desde o nascimento.
         "O pai deve entrar no cotidiano do filho quando ele é bebê, pois, do contrário, ficará mais difícil fazer isso à medida que o pequeno cresce", explica. "Com a ausência dele nessa primeira fase da vida, a criança cria um vínculo muito forte com a mãe e, depois, pode ter dificuldades em aceitar a figura paterna, nessa altura praticamente um desconhecido para ela", completa.
          A psicóloga Elizabete Alves Mergulhão, da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista, vai mais longe. Para ela, a presença do pai é importante desde a concepção — idéia hoje compartilhada pela maioria dos especialistas.
          "Por isso, é saudável que ele participe ativamente da preparação para a chegada do rebento, ajudando a montar o quarto, a comprar o enxoval e acompanhando cada etapa da gravidez da parceira", diz Elizabete.
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