APASE - Associação de Pais e Mães Separados
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REVISTA CRESCER - Janeiro 2005

Minha casa, sua casa

Pais separados não devem usar as diferenças de opinião sobre a educação dos filhos como desculpa para brigar. A criança precisa de regras coerentes
Malu Echeverria

Quando o assunto é educação dos filhos, sobram motivos para divergências entre os pais - principalmente após o divórcio. Onde ele vai estudar? Quem será o pediatra? Pode jantar vendo TV? "É natural que pais e mães tenham opiniões contrárias, não vieram da mesma família. Isso acontece tanto com pais casados quanto com separados", explica a psicóloga Magdalena Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O problema é transformar o filho em pretexto para brigas. Segundo a especialista, a situação é comum quando o divórcio foi mal resolvido.

"Às vezes, pais e mães brigam até porque um cortou o cabelo da criança sem consultar o outro", conta Roberta Palermo, presidente da ONG Associação de Madrastas e Enteados (AME), habituada a ouvir reclamações desse tipo. O conselho que ela dá aos pais é simples: é melhor guardar as energias para debater questões realmente importantes, que façam diferença no desenvolvimento da criança. O que não inclui, obviamente, o estilo do penteado.

 

Papéis distintos


O equilíbrio nesse jogo depende de um princípio básico, que muitas vezes os casais esquecem. Eles se separam como marido e mulher, não como pais. "São papéis diferentes", ressalta a advogada e psicóloga Verônica Motta Cezar-Ferreira, autora de Família, Separação e Mediação - Uma Visão Psicojurídica (Editora Método, 2004). Quando os pais têm isso em mente, fica mais fácil relevar diferenças em relação à rotina dos filhos, como acontece com a analista de sistemas Kárim Krüger, mãe de Gabriel, 7 anos, e divorciada há quatro anos de Cláudio Silva. O menino mora com o pai, mas passa dois dias por semana com Kárim, que também alterna a guarda do filho com o ex-companheiro nos finais de semana. "Acho fundamental que os pais conversem sobre a educação da criança, mesmo que não sejam mais amigos. Afinal, cada um tem de saber como são as regras na outra casa para não haver tanta incoerência", acredita Kárim. Ela admite que nem sempre há acordo. Na sua casa, por exemplo, Gabriel costuma ir para a cama um pouco mais tarde. "Nos dois dias em que fica comigo durante a semana, só nos encontramos por volta das 19 horas. Se logo fosse dormir, ficaríamos ainda menos tempo juntos", justifica a mãe.

As normas não precisam ser exatamente as mesmas, mas constantes. A rotina transmite segurança à criança. Caso contrário, ela pode ficar confusa, ou pior, usar a falta de diálogo dos pais a seu favor. Frases como "Mas o papai falou que eu posso fazer isso" ou "Eu quero morar na casa da mamãe" são comuns nesse telefone-sem-fio, que corre o risco de se transformar num emaranhado de diz-que-diz.

Vale lembrar que o pai detentor da guarda não é o proprietário da criança. Ambos podem - e devem - decidir juntos o que é melhor para o filho. "Quando um dos pais acredita ser o dono da criança, em geral, o outro não se sente no direito de interferir, ou seja, de educar", alerta Verônica. Quem sai perdendo, claro, é o filho.

 

Culpa e limites


Se pais costumam ser culpados por natureza, os divorciados são mais. Com medo de perder o amor do filho, atendem a todas as vontades. O sentimento é mais comum entre os pais visitadores, caso do analista de sistemas Anderson de Paula Silva. "Já tive receio de dizer não à minha filha. Não queria gastar o pouco tempo que passamos juntos com brigas." Pai de Luiza, de 6 anos, Anderson, que vê a filha a cada duas semanas, aos poucos percebeu que viver em casas diferentes não diminui a responsabilidade de pai. Certa vez, a menina foi malcriada com ele pelo telefone. Ao encontrá-lo no fim de semana, ouviu a bronca.

Quando um pai fica com o papel de bondoso, ao outro resta o de vilão. "O pai que impõe limites às vezes teme que o filho prefira a outra casa", diz a psicóloga Magdalena. A maneira de resolver as diferenças importa mais, segundo os especialistas, do que as diferenças em si. Se for o caso, busque a ajuda de um mediador. "As regras não são universais. Seja na escola, na casa dos pais, dos avós ou do amigo, a criança aprende a se portar conforme o ambiente", acredita Magdalena. O filho de pais separados pode, sim, ter duas casas. Desde que sinta - e se refira - às duas como o próprio lar.

 

Dois aniversários

 

Se não houver diálogo entre os pais, até mesmo o aniversário do filho, teoricamente um motivo para comemorar, vira disputa. "O ideal seria que a criança tivesse apenas uma festa, com a presença de ambos os pais", afirma a psicóloga Verônica Motta Cezar-Ferreira. Mais de uma festa de aniversário pode ser ruim até mesmo para os convidados, se estes forem chamados às duas comemorações. Isso porque terão de comprar dois presentes e, ainda por cima, conciliar os compromissos na agenda. "Assim, os pais estariam transferindo a responsabilidade deles para terceiros", diz Verônica. Quando não existe acordo, uma opção seria, assim como acontece nas festas de Natal e Ano-Novo, revezar a companhia do filho. "Num ano a festa fica por conta do pai, no outro, da mãe", sugere. Dois aniversários Se não houver diálogo entre os pais, até mesmo o aniversário do filho, teoricamente um motivo para comemorar, vira disputa. "O ideal seria que a criança tivesse apenas uma festa, com a presença de ambos os pais", afirma a psicóloga Verônica Motta Cezar-Ferreira. Mais de uma festa de aniversário pode ser ruim até mesmo para os convidados, se estes forem chamados às duas comemorações. Isso porque terão de comprar dois presentes e, ainda por cima, conciliar os compromissos na agenda. "Assim, os pais estariam transferindo a responsabilidade deles para terceiros", diz Verônica. Quando não existe acordo, uma opção seria, assim como acontece nas festas de Natal e Ano-Novo, revezar a companhia do filho. "Num ano a festa fica por conta do pai, no outro, da mãe", sugere.

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