APASE - Associação de Pais e Mães Separados
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O Popular – Goiânia – 13/03/2005

COMO PRESERVAR OS FILHOS NA SEPARAÇÃO

Embora a separação não seja necessariamente ruim para os filhos, pode ter efeito arrasador se não há respeito entre o casal.

Isabel Czepak

Mais de 100 mil separações judiciais em primeira instância e 135 mil divórcios foram consumados no Brasil em 2003, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número é três vezes maior do que a média anual da década de 70. Esse aumento na freqüência de separações faz com que um número cada vez maior de filhos (crianças na maioria) vivenciem o fim do casamento dos pais. Estima-se que eles somem, em média, 200 mil anualmente.

A experiência, que já não é fácil, pode tornar-se devastadora quando os filhos acabam no meio de um cabo-de-guerra entre pai e mãe, o que não é tão incomum. Conforme o IBGE, 21 % das separações foram litigiosas. É pior ainda quando os pais não conseguem preservar as crianças do conflito. Texto publicado pela Children Rigth Council, ONG americana de defesa da criança, e das mais respeitadas no mundo, diz que as brigas entre o casal comprometem a saúde emocional e afetam a auto-estima das crianças, podendo deixar seqüelas para o resto da vida.

Há cinco anos acreditava-se que a separação, sozinha, seria um fator determinante para a desestabilização emocional, baixo rendimento escolar e baixa auto-estima dos filhos. Pesquisa que durou 19 anos e estudou famílias americanas de classe média, publicada pela psicóloga Judith Wallerstein, apontava que os filhos de pais divorciados eram mais problemáticos que os casais estáveis. Estudos posteriores mostraram que não é bem assim.

Psicólogos concordam que a separação pode até fazer bem para as crianças, dependendo da realidade da família antes do rompimento e da forma como o processo é conduzido pelo casal. “Se os pais estão juntos, mas a criança convive com brigas e agressões, a separação é melhor”, avalia o psicodramatista Silvamir Alves, presidente da Sociedade Goiânia de Psicodrama. “Se os pais evitam as brigas e ajudam os filhos a elaborar a experiência, elas podem emergir mais amadurecidas. Aproveitado de forma positiva, o estresse estimula o crescimento”, comenta Silvamir Alves.

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Auto-estima

O conflito entre o casal é um baque na auto-estima dos filhos porque estes se sentem parte dos pais. Assim, freqüentemente interpretam a raiva entre eles como sendo também contra si. Muitas crianças reagem “desligando” seus sentimentos, reprimindo suas emoções, se isolando. Conforme Silvamir Alves, o rendimento escolar é um bom termômetro do estado emocional da criança. Se ela está mal normalmente o rendimento cai. “Outros sinais de alerta são tristeza, apatia, agressividade e aparecimento de distúrbios de fala e do hábito de roer as unhas”.

A também psicodramatista e terapeuta de casais e família Inês Pena explica que as brigas deixam as crianças confusas. “Elas gostam tanto do pai quando da mãe, então se sentem divididas”. Quando são envolvidas no conflito, manipuladas para tomar partido, o resultado pode ser ainda mais catastrófico. “Uma mãe que destrói a imagem do pai para a filha, por exemplo, está preparando essa filha para não confiar em homem nenhum. Essa menina poderá vir a ter sérios problemas de relacionamento no futuro.”

Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise, autor de vários livros, Noé Marchevsky reforça que para ter um desenvolvimento saudável as crianças precisam de pais a quem possam admirar e amar. Se os pais se agridem e denigrem a imagem um do outro, a criança perde esses modelos positivos. “Como resultado ela poderá enfrentar sérios problemas na formação de seu caráter, porque ficará sem referências, não terá quem copiar”, acrescenta Silvamir Alves.

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Manipulação da criança pode causar síndrome

Em alguns casos, a manipulação das crianças pelo pai ou a mãe, pode adquirir contornos doentios. A criança é programada por um para odiar o outro, tornando-se vítima da Síndrome de Alienação Parental (SAP). A síndrome é descrita pelo professor de Psiquiatria Infantil da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Richard Gardner, como uma perturbação que surge principalmente no âmbito das disputas pela guarda e custódia das crianças. Sua primeira manifestação é uma campanha de difamação injustificada contra um dos pais por parte do filho.

Crianças com a síndrome têm o vínculo com o genitor afastado, se essa ausência já dura alguns anos, irremediavelmente destruída. Nessa situação, o modelo principal passa aa ser o do alienador (o pai ou a mãe que difama o ex-companheiro), cujo comportamento é patológico e mal adaptado. Se tem predisposição, a criança pode desenvolver sérios distúrbios psiquiátricos. Gardner classifica a indução da síndrome como uma forma de abuso. “Em casos de abusos sexuais ou físicos, os traumas sofridos chegam a ser superados um dia, Mas o abuso emocional rapidamente repercutirá em conseqüências psicológicas”, escreve.

Segundo Gardner, os efeitos da SAP na criança podem variar de depressão, isolamento e incapacidade de adaptação, a comportamento hostil e dupla personalidade. Pessoas com a síndrome têm inclinação às drogas. Também podem tornar-se mentirosas e manipuladoras, como os genitores de que foram vítimas. Isso porque desde muito cedo são treinadas para falar apenas uma parte da verdade. Quanto tornam-se adultas e constatam que foram cúmplices inconscientes de uma injustiça contra o pai ou a mãe normalmente se voltam contra o alienador e tentam retomar o relacionamento com o genitor afastado. Algumas das vítimas são tomadas por um sentimento incontrolável de culpa cuja conseqüência mais drástica é o suicídio.

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Rejeição ao pai e medo de relacionamentos

A psicóloga Rosângela Parreira Lopes Amorim – que trabalhou em Goiânia e atualmente atua em Ceres, a 183 quilômetros da capital – atendeu duas pacientes vítimas da Síndrome da Alienação Parental (SAP). Uma chegou ao seu consultório com 2 anos, encaminhada pela Justiça. O pai solicitou o acompanhamento via judicial porque morava distante e, nas pouquíssimas vezes em que podia viajar para ver a filha, a mãe não permitia a aproximação entre os dois. Inclusive desobedecia a decisões judiciais que asseguravam ao pai o direito de visita.

Apesar da pouca idade e da dificuldade natural de expressão, a menina já demonstrava enorme rejeição aos contatos com o pai. Chorava para não falar com ele, mesmo ao telefone, e demonstrava medo desmedido e sem justificativa. Com o acompanhamento psicológico e atividades expressivas – em que era trabalhada a composição familiar -, a rejeição acabou. “Ela não só o aceitou, como passou a dar demonstrações de carinho e finalmente aprendeu a chamá-lo de Pai”.

A outra paciente, já adulta, precisou de acompanhamento psicológico porque, tendo sido vítima da SAP na infância, não conseguia se relacionar com o sexo oposto. “Ela tinha medo de que seus relacionamentos seguissem o mesmo curso da relação entre a mãe e o pai”. Rosângela Amorim alerta que os casais costumam ficar tão envolvidos com o confronto entre si, que se esquecem de que o filho precisa ser preservado, não pode ser usado como arma.

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Estresse do conflito conjugal

A psicodramatista e terapeuta de casais Inês Pena, que trabalha em Goiânia, observa que – apesar da divulgação cada vez maior sobre os prejuízos do conflito conjugal para os filhos – é freqüente o aparecimento de vítimas do problema nos consultórios. “E esse é um “mal” que não faz distinção de classe ou de escolaridade”. Sua origem, conforme a psicóloga, está ligada a um conjunto de fatores, entre os quais podem ser relacionados a falta de maturidade do casal, baixa auto-estima dos conjugues, depressão e ansiedade.

“A história familiar também conta muito. Adultos que passaram por esse tipo de situação quando crianças tendem a repetir o comportamento dos pais”, comenta. “Se a separação é inevitável, para evitar problemas imediatos e futuros o melhor é procurar a mediação de um psicólogo”, orienta o também psicodramatista Silvamir Alves. “Estudos apontam que os conflitos conjugais aparecem em segundo lugar no ranking das experiências mais estressantes na vida de uma pessoa. Só perdem para a morte. Nem uma doença inesperada causa tanta angústia.”

Separada desde junho, V., 35 anos, não se arrepende de, logo nos primeiros dias, ter procurado um psicoterapeuta. Ela encontrou o marido com outra e mandou-o embora de casa. “Com a terapia, consegui canalizar as minhas energias para mim mesma e deixei de lado o relacionamento extra-conjugal de meu ex-marido”. Fortalecida, V. conseguiu controlar melhor a raiva e a decepção. Isso foi positivo para os dois filhos do casal. O ex-marido os visita todos os dias, mesmo quando V. está em casa, e o relacionamento entre os dois é respeitoso. “Não quero que pai e filhos se distanciem”. Apesar do cuidado, V. diz que o filho mais velho, de 9 anos, começou a apresentar problemas na escola logo depois da separação. “Conversei com a coordenadora pedagógica e, felizmente, tudo se resolveu”.

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Dilema na disputa pela guarda

Decretada a separação judicial ou o divórcio sem que haja um acordo entre o casal sobre com quem ficará com a guarda dos filhos, o juiz deve atribuí-la a quem revelar melhores condições para exercê-la. È o que está escrito na lei. O novo Código Civil não privilegia mais a mãe e iguala os direitos dos conjugues. O que conta é o bem-estar da criança. Mas a Justiça está aparelhada para fazer essa escolha, especialmente quando o casal está à turras e a relação entre pais e filhos se torna nebulosa?

Nessa situação, as crianças costumam ficar divididas e omitir seus sentimentos. Já os conjugues tentam denegrir a imagem um do outro. “O auxílio de um psicólogo na elaboração de um estudo psicossocial é importante”, observa a juíza Maria Luiza Povoa, da 2ª. Vara de Família. Entretanto, em Goiás, nenhuma vara de família dispõe desse serviço. Nas varas não-oficializadas (aquelas em que as partes pagam as custas do processo), os laudos costumam ser solicitados e a família arca com a despesa. Mas sobram as varas de assistência judiciária gratuita (seis ao todo).

Maria Luiza Povoa, que atua numa vara não-oficializada e em outra de assistência gratuita, encontrou uma solução criativa para a situação. Graças à sua intermediação, os psicólogos e médicos que prestam serviços aos que podem pagar assumiram o compromisso de atender, gratuitamente, aqueles que não podem. Outra alternativa, utilizada por algumas varas e mesmo pelo Juizado de Menores, tem sido o encaminhamento a serviços populares (mantidos por universidades e instituições de especialização).

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Uso do poder econômico

A expectativa da juíza Maria Luiza Povoa é de que peritos sejam contratados na gestão do recém-emposado presidente do Tribunal de Justiça de Goiás, Jami Macedo. Embora considere o apoio do psicólogo importante, Maria Luiza diz que ele não é fundamental. “O juiz pode lançar mão de outros recursos, como visitar a criança”. Maria Luiza confirma que é freqüente a utilização da criança pelos conjugues e que essa manipulação, quando parte do pai, se baseia no poder econômico. “Já a mãe se vale do afeto”. Na opinião da juíza, os magistrados normalmente estão preparados para detectar esse tipo de problema e julgar com isenção.

Advogado há 39 anos, 30 dos quais dedicados à área da família e sucessões, Getúlio Vargas de Castro comenta que se torna cada vez mais comum os juízes solicitarem laudos psicossociais. O Problema, segundo ele, é que esse tipo de medida torna o andamento dos processos ainda mais moroso e prolonga o sofrimento da família. Castro preocupa-se também com o fato de que os juízes estão cada vez mais jovens. “Na área de família, a experiência do juiz conta muito. Embora seja incontestável o preparo teórico desses jovens juízes, falta-lhes a experiência de vida”.

Há quatro anos disputando a guarda da filha, o funcionário público A., diz que a maioria dos juízes não se desapegou da legislação antiga e privilegia a mãe na hora de decidir. Os números apontam que ele tem razão. Em 2003, 183 homens pleitearam a guarda dos filhos, mas só um obteve esse direito na capital. A. diz ter provado que a ex-mulher não tem condições de cuidar da filha. “Ela namorava um homem casado que agrediu minha filha verbalmente na porta da escola; negligencia horários de remédios e sequer escova os dentes da menina. Mesmo assim, continua com a guarda”.

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